Mário Boechat
04/03/2016
17:12
Xangai (CHN) 

O futebol chinês assustou o mundo nesta janela de transferências ao movimentar milhões de euros na contratação de diversos jogadores da Europa. Nomes como Jackson Martínez, Gervinho, Lavezzi, Alex Teixeira e Ramires deixaram o Velho Continente para se aventurar em solo asiático. Da América do Sul, os clubes do país trouxeram atletas como Renato Augusto, Ralf e Jadson. No entanto, a quarta negociação mais cara envolveu um brasileiro com experiência na China: o Shanghai SIPG pagou 18,5 milhões de euros (R$ 73,7 milhões) ao Guangzhou Evergrande por Elkeson.

O atacante, ex-Botafogo, era um dos destaques da equipe. Ele foi artilheiro em duas (2013 e 2014) das três temporadas em que atuou no futebol chinês pelo Guanghzou Evergrande, que contou com Elkeson em três dos cinco títulos nacionais. O jogador ganhou ainda por duas vezes a Liga dos Campeões da Ásia.

Em entrevista exclusiva ao LANCE!, Elkeson revela o motivo que o fez largar o multicampeão Guangzhou Evergrande, fala sobre a parceria com Conca, que será repetida no Shanghai SIPG, e espera um ano ainda melhor do que 2015 que, apesar dos títulos, ficou um bom tempo lesionado.

Você é um dos grandes ídolos da história do Guangzhou Evergrande. O que o fez deixar a equipe nesta temporada?

Eu estava querendo um desafio novo. É óbvio que os três anos que fiquei no Ghangzhou foram os três melhores da minha carreira, mas tem um momento que você precisa de um desafio, não pode se acomodar. Surgiu a oportunidade de trabalhar com o Sven-Goran Eriksson, que é um treinador que trabalhou em grandes clubes da Europa e na seleção da Inglaterra. Fiquei muito motivado quando soube da sua intenção em me contratar. E o Conca é um amigo meu, jogamos juntos no Ghangzhou, e me passou boas informações. O clube é novo, tem bons jogadores jovens que já estão na seleção do país. Abracei esse projeto e estou muito feliz com a decisão que tomei. Vim morar em uma das melhores cidades do país, se não for a melhor. Xangai é uma cidade moderna, principalmente para os estrangeiros, o que faz uma diferença muito grande.

Você é o maior artilheiro da história da equipe, superando o ex-companheiro Muriqui. Esperava todo esse sucesso no futebol chinês? A que atribui esse bom momento?

Quando eu vim para o Guangzhou, saí de uma temporada boa no Botafogo, mesmo tendo que me adaptar a uma nova função, que eu agradeço ao Oswaldo de Oliveira de ter dado a oportunidade de jogar como atacante. Procurei nestes três anos me aprimorar na função. Contei com o apoio de grandes jogadores, como o Conca e o Muriqui, tenho entrosamento legal com eles, conquistamos títulos importantes na China. Procuro sempre evoluir e me dedicar nos treinos para aprimorar, principalmente a movimentação, finalização. E contei muito com o Felipão, que estava sempre me passando uns toques especiais para eu executar nas partidas.

Você deixou o Guangzhou para jogar no Shanghai SIPG e vai reeditar parceria com o argentino Conca. Como era essa dupla no Guangzhou? Acredita que vai fazer muitos gols com os passes dele?

A expectativa é essa, de conseguir fazer uma grande temporada, conquistar títulos, agora defendendo a equipe de Xangai. Estou muito motivado, o Conca é um grande amigo, conversamos bastante. A gente já se conhece dentro de campo, há um entrosamento, e vamos procurar ajudar a equipe a se tornar forte no país, pois tem jogadores de qualidade, chineses jovens e com ambição de conquistar títulos. Eu e o Conca estamos muito motivados para conquistar esses objetivos, assim como nosso treinador.

Conca - Shanghai SIPG
Conca é companheiro de Elkeson (Foto: Paul Crock / AFP)


Jogou contra ele no Brasil?


Eu joguei na época do Vitória, em 2010, no Barradão, quando estava subindo aos profissionais. No Maracanã eu nunca joguei, eu tenho uma vontade louca de atuar lá, mas não tive oportunidade. Quando estava no Botafogo, o Maracanã estava fechado para obras da Copa do Mundo. Em 2010, quando o Fluminense foi campeão e o Conca foi o melhor do campeonato, nós perdemos no Barradão e ele marcou um de pênalti.

E você enfrentou o Conca na China?

Enfrentei no ano passado e descontei. O Guangzhou ganhou do Shanghai.

Acredita que os olhos do mundo estarão mais voltados para o futebol chinês, após grandes jogadores do futebol europeu desembarcarem no país?

A gente está surpreso com o crescimento e a especulações em torno da mídia. Todos ficaram ligados na janela de transferências, pois as negociações chamaram muito a atenção. Muito jogadores vieram para a China, espero que todos tenham sucesso, que seja um campeonato bem disputado, e isso vai ajudar muito a crescer o futebol no país. A chegada dos jogadores brasileiros e estrangeiros só vai acrescentar e ajudar os jogadores locais a se desenvolverem, que é o objetivo do presidente do país, que apoia muito o futebol e que ver a China disputar novamente uma Copa do Mundo.

Gervinho - Hebei Fortune
Gervinho estreou com gol na China (Foto: STR / AFP)

Você esperava tantas contratações de impacto? A sua também é uma delas...

No ano passado, ninguém esperava essas contratações de peso. Eu já vinha conversando com a equipe de Shanghai desde o ano passado, mas só foi concretizada a negociação quando eu voltei aqui para a China. Mas essas contratações de impacto que vieram da Europa a gente não esperava. Mas isso vai motivar ainda mais para continuarmos o nosso trabalho, pois sabemos que muita gente vai estar acompanhando, como já acompanhavam nos anos anteriores. Agora chamou mais atenção no Brasil. Na Europa, já observavam os atletas que estavam aqui na Super Liga Chinesa.

O Shanghai SIPG estreia nesta temporada no Campeonato Chinês no sábado, diante do Henan Jianye. Está confiante em uma performance nesta temporada?

Estou muito confiante. O nosso clube não contratou jogadores chineses. Eu fui o único reforço nesta janela de transferências. Sei da minha responsabilidade, da cobrança que irá existir. Estou preparado e motivado para este desafio, era o que eu queria para a minha carreira. E espero fazer um grande campeonato, não ter lesões nesta temporada, pois ano passado sofri com elas, que acabaram atrapalhando minha temporada no Guangzhou.

Acredita que ela será a temporada mais disputada dos últimos anos?

Tem tudo para ser. Nos dois anos anteriores, já foi muito disputado. Só fomos campeões na última rodada. Esse ano, as equipes se reforçaram ainda mais. Praticamente todas as equipes têm três estrangeiros de alto nível. Com certeza eles vão ajudar as suas equipes a fazer um excelente campeonato. Quem errar menos, quem tropeçar menos em casa, vai sair vencedor. É um campeonato longo, que com certeza vai ser o melhor dos últimos anos.

E na Liga dos Campeões da Ásia? Vocês se consideram favoritos?

A nossa chave é muito forte. Na quarta-feira, conseguimos a nossa primeira vitória (sobre o Suwon, da Coreia do Sul, por 2 a 1) na Liga dos Campeões. É a primeira vez que o Shanghai disputa o torneio. Esperamos fazer um grande campeonato, o intuito é ser campeão, mas sabemos que haverá muitos grandes times. O nosso objetivo é fazer bonito nesta competição, que é a mais importante do continente.

E você acredita que o técnico Dunga também terá uma atenção especial com o futebol na China, que terá brasileiros como Alex Teixeira, Gil, Jadson, Renato Augusto?

Acredito que sim, até porque essas contratações repercutiram muito, principalmente no Brasil. Muitos desses jogadores estavam se destacando na Europa e também no Brasil, no caso do Renato Augusto, do Jadson, Ralf, e vieram para a China. E claro que estarei torcendo para eles serem convocados para a Seleção. Espero que eles não sejam esquecidos por terem vindo jogar aqui na Ásia.

Alex Teixeira - Jiangsu Suning
Alex Teixeira também já marcou (Foto: Reprodução / Twitter)

Você aceitaria se naturalizar chinês?

Nunca passou pela minha cabeça essa possibilidade. Eu acho meio difícil, não tenho essa intenção. O meu objetivo é fazer muitos gols, conquistar títulos, apenas jogando na minha equipe. Nunca vi nenhum jogador se naturalizando chinês. Quando cheguei, ouvi que eles queriam naturalizar o Muriqui, houve um início de conversa, mas pelo o que ele me passou, era muito difícil de acontecer. Nunca ninguém me procurou e não criei expectativa. Mas não tenho certeza se jogaria pela China. Os jogadores chineses do Guangzhou que eram convocados me presenteavam com a camisa da seleção. Seria algo diferente para mim.

No ano passado, o artilheiro do Chinês foi o Aloísio, do Shandong Luneng. A ponta na tabela de artilheiros também é uma meta para esta temporada? Você já foi artilheiro por duas vezes...

Com certeza. Esse é o meu objetivo. Quero poder jogar em alto nível esse ano, como fiz nos dois primeiros anos. Em 2015, eu perdi praticamente todos os jogos do campeonato. Espero que este ano eu não tenha nenhuma lesão e que eu faça um bom campeonato, que dê para eu disputar a artilharia com esses outros atacantes que estão disputando a Super Liga. Fiquei quatro meses parado por um rompimento do músculo posterior da coxa.

Você já passou por alguma situação embaraçosa na China? Como é a culinária do país, a cultura?


Você não passa dificuldade com a culinária. É engraçado que todos me perguntam isso. Em Guangzhou já tinha diversos restaurantes internacionais, duas churrascarias brasileiras, e agora em Xangai que tenho tudo mesmo. Os melhores restaurantes, as melhores churrascarias brasileiras estão aqui. Sobre a alimentação, nunca tive dificuldades. O idioma segue sendo a nossa maior dificuldade. É muito complicado aprender o mandarim. No Guangzhou já estava acostumado, pois a comissão técnica era toda brasileira, havia muitos brasileiros no elenco, e já estava acostumado a falar com tudo mundo em português. Agora voltou tudo ao começo. Preciso de um tradutor para me comunicar. O lado bom é que o Conca está aqui e ele fala português. O Eriksson fala um pouco de português, pois foi treinador do Benfica e morou em Portugal. Mas com os outros jogadores, falo muito pouco. Muitas vezes eu preciso de tradutor.

Mas nunca precisou comer escorpião ou comidas do tipo?

Nunca tive nem curiosidade de experimentar. Isso é mais para turista, que vem ao país e tem a curiosidade. Mas eu nunca tive essa curiosidade.

No Botafogo, você chegou como meia. E no Rio, virou atacante. E isso foi um diferencial para chegar voando na China e se tornar artilheiro?

Acredito que sim. Naquela época no Botafogo, o Loco Abreu e o Herrera haviam saído do clube. O Oswaldo confiou em mim. Mesmo com a desconfiança da torcida, consegui marcar alguns gols e terminei a temporada como artilheiro da equipe. Foi bom para mim, procurei me dedicar ao máximo na função. Contei também com o apoio dos meus companheiros, o que foi muito importante para me adaptar mais rápido. No Guangzhou, o técnico Marcelo Lippi, que havia me visto jogar nessa função no Botafogo e gostou, passou a me utilizar assim. Procurei treinar muito para me aprimorar.

Ainda acompanha jogos do Botafogo? Pensa em voltar um dia?

Eu não acompanho nada de futebol no Brasil. Na minha casa eu não ligo nem a TV, já perdi o costume. Por causa do fuso horário. Nos jogos à noite no Brasil, eu estou acordando aqui na China ou ainda estou dormindo. Vejo mais os lances depois da partida, mas acompanho muito pouco.

Na China, o futebol ainda está abaixo do que é praticado no Brasil?


Em competitividade, sim. Mas a organização e a estrutura deles aqui na China é incomparável. É um diferencial. Mas o Campeonato Brasileiro é uma referência, é um dos mais difíceis da atualidade.