Bernardo, do RB Leipzig

Bernardo passou pelo Red Bull Brasil antes de chegar ao Leipzig (Foto: Odd Andersen/AFP)

Alex Sabino -
09/11/2016
08:00
São Paulo (SP)

O ônibus com os jogadores do Leipzig se aproximava do RheinEnergieStadiom quando teve de parar. Os torcedores do Colonia sentaram na rua para impedir a passagem do veículo, que só conseguiu chegar ao estádio 15 minutos antes da partida. O pontapé inicial foi adiado em 30 minutos.

- Todos os nossos jogos fora de casa têm algum tipo de protesto. Xingamentos, músicas, faixas… A gente já se acostumou.

O meia brasileiro Bernardo faz parte da grande surpresa do futebol europeu até agora na temporada. Após dez rodadas, o RB Leipzig, criado em 2009 e pela primeira vez na Primeira Divisão alemã, está empatado em pontos com o Bayern de Munique. Invicto no torneio, tem sete vitórias e três empates.

Em vez de ser celebrada, a campanha da equipe desperta hostilidade nas torcidas adversárias. Apesar de novo e pequeno, o Leipzig é chamado de time mais odiado da Alemanha. Em jogo da copa local, contra o Dynamo Dresden, uma cabeça de porco foi atirada no campo.

- Ninguém no clube liga muito para isso. Nem a nossa torcida. Mas os outros torcedores não gostam de nós, realmente – completa ao LANCE! o brasileiro de 21 anos.

"Podemos brigar por uma vaga na Liga Europa. É cedo para dizer o que pode acontecer


É raiva ideológica e vem da parcela mais radical dos torcedores. A visão é que o Leipzig não representa os valores considerados tradicionais do futebol alemão. Especialmente a obrigatoriedade de os sócios terem participação nas decisões do clube. O “RB” do Leipzig significa Red Bull, a empresa de bebida energética que investe de clubes de futebol, equipes de Fórmula 1 e esportes radicais.

Pelas regras da Federação Alemã, companhias não podem aparecer nos nomes dos clubes. A solução do Red Bull foi pura malandragem. Batizaram a equipe como RasebBallsport Leipzig. RasebBallsport significa “bola no gramado”. A lei também obriga que os associados tenham voz nas decisões de diretoria. Para ser membro do Leipzig, a taxa é de mil euros por ano (cerca de R$ 3,5 mil). Representa dez vezes mais que o valor cobrado pelo Bayern de Munique.

Borussia Dortmund e Schalke 04 possuem 140 mil sócios cada. O RB Leipzig tem 17.

Ter um clube na Alemanha era um sonho de Dietrich Mateschitz, o fundador da Red Bull. Procurou por três anos até comprar na federação local a vaga que era do SSV Markranstadt, da quinta divisão. A empresa fundou também o Red Bull Salzburg, na Áustria; New York Red Bulls, nos Estados Unidos; Red Bull Ghana, em Gana, na África; E o Red Bull Brasil, em São Paulo.

A campanha tornou o time de Leipzig a menina dos olhos dos dirigentes.

- É cedo para dizer onde podemos chegar. Está todo mundo surpreso. O campeonato não está no começo, já foram dez rodadas, mas tem muita coisa para acontecer. Acho que podemos brigar por uma vaga na próxima Liga Europa – completa Bernardo, citando a meta de terminar em 5o ou 6o.

A filosofia de todas as equipes criadas pela Red Bull é usar jovens jogadores. A média de idade do elenco é de 24 anos. A visão do futebol é matemática. Foram montados cálculos para estimar quanto tempo a equipe deve levar para roubar a bola do adversário e chegar ao gol. O Leipzig é anti-Guardiola. Rejeita a tese de que o importante é manter a posse.

- Em média, a gente corre cinco quilômetros a mais que os adversários. Ninguém espera voltar à defesa para marcar. A ideia é central é que todo mundo tem de marcar. Os nossos centroavantes são chatos. Eles incomodam demais os rivais – afirma o brasileiro.

A orientação é que se o jogador estiver com a bola, mas apertado pela marcação, deve devolvê-la para o adversário e pressionar para roubá-la no ataque. A obsessão com esta maneira de jogar é tão grande que, quando o time estava na segunda divisão, o diretor Ralf Rangnick assumiu o cargo de técnico para implantar o estilo de jogo. Após o acesso, voltou à diretoria.

- A cidade está em êxtase. Todo mundo aqui abraçou a equipe – finaliza Bernardo.

Leipzig é cidade da antiga Alemanha Oriental. O único time da região a chegar à Primeira Divisão desde 2009. É cedo para dizer se o time da Red Bull será capaz de ameaçar realmente o Bayern de Munique, mas eles estão acostumados a desafiar prognósticos. A previsão estar na elite nove anos após a fundação. Foram necessárias apenas sete temporadas.

BATE-BOLA COM BERNARDO

Você imaginava que o Leipzig poderia ter esse início de campanha?
Não. Objetivo da equipe, quando começou a temporada, era permanecer na primeira divisão. Ideia era chegar ao alto nível no prazo de dois ou três anos.

Por que está acontecendo agora, então?
Somos jogadores jovens. A entrega é maior. Nós temos um ataque rápido, vertical. A pressão é grande na saída de bola do adversário.

Mexe com vocês os protestos nos jogos?
Acontece toda semana, mas é indiferente para nós. No começo da partida, no aquecimento, você escuta alguma coisa, vê uma faixa, tem um torcedor mais exaltado... Quando a bola rola, é sempre a mesma coisa.

Você já passou pelas equipes do Red Bull no Brasil, na Áustria e agora na Alemanha. O que o time de Leipzig tem de diferente?
Eu estava emprestado pela Ponte Preta ao Red Bull Brasil, quando o pessoal do Salzburg me viu. Consegui me destacar lá e vim para o Leipzig. É uma diferença proporcional ao tamanho dos campeonatos. A estrutura que temos na Alemanha é top. Das melhores do mundo.

Você saiu da Ponte Preta para o Red Bull Brasil, o que poderia ser visto como um passo atrás na carreira. Já tinha em mente a possibilidade de jogar em uma equipe da empresa na Europa?
Sim, eu já tinha isso na cabeça. Era um caminho que eu poderia seguir porque há essa conexão entre as equipes. Meu primeiro pensamento era jogar o Campeonato Paulista e me destacar. Eu tinha essa visão do intercâmbio de jogadores. Fui feliz na minha decisão. Daqui a três anos o Leipzig pode ser grande no futebol alemão como é o Schalke 04 ou o Hamburgo. É uma meta possível.