Alex Sabino -
19/07/2016
08:30
São Paulo (SP)

Tentar falar com Ched Evans, 27 anos, atualmente na terceira divisão inglesa, é esbarrar em um intransponível muro de silêncio. Ele se recusa a conversar com a imprensa. Seu empresário não comenta sobre o cliente

- Não é do nosso interesse dizer nada no momento – declarou Chris Bird, da Bird Consultancy, empresa de Relações Públicas que cuida da imagem do atacante, respondendo ao pedido de entrevista do LANCE!

Nem o Chesterfield, que o contratou há cerca de dois meses, quer se pronunciar.

- Nós não vamos falar a respeito de Ched por enquanto – foi a resposta de Nick Johnson, chefe de mídia e comunicação do Chesterfield à reportagem.

Ched Evans é um pária do futebol europeu. Por aceitar contratá-lo, o clube já perdeu um patrocinador e pode ver a própria torcida se revoltar. Hoje, no pequeno estádio de Causeway Lane, com capacidade para 2.700 pessoas, ele vai entrar em campo pela primeira vez com a camisa da equipe, para um amistoso diante do Matlock Town, da Sétima Divisão inglesa.

Mais do que o adversário, o local foi escolhido a dedo para evitar um grande número de torcedores que pudessem fazer do atacante alvo de xingamentos e protestos.

Em abril de 2012, Evans foi condenado por estupro. Ficou preso por 21 meses e saiu por bom comportamento. Virou um nome polêmico dentro do país e todos os clubes que se interessaram em contratá-lo desde que foi solto, em outubro de 2014, receberam uma enxurrada de protestos e reportagens negativas na imprensa.

- Nós não podemos comentar sobre o caso, mas temos confiança de que a verdade será mostrada em breve – diz o curto comunicado de Kieran Vaughan e David Emanuel, advogados do jogador, em contato com o L!.

O escritório de advocacia conseguiu anular a sentença e marcar um novo julgamento para outubro deste ano. A alegação é a existência de provas que não foram levadas em consideração pelos policiais na investigação do caso. Evans pode voltar para a cadeia, mas ele aposta que será absolvido. Seu nome continua, por tempo indeterminado, no registro de agressores sexuais.

O atacante sempre jurou não ter cometido o crime (o que pode dar margem às piadas que a cadeia está cheia de inocentes). Mas ele levou isso às últimas consequências. Recusou-se a ficar na ala dos agressores sexuais na penitenciária, o que obrigou as autoridades a arranjar-lhe proteção especial. Foi ameaçado de morte.

Revelação do Manchester City em 2007, era uma aposta do clube para o futuro, mas não recebeu muitas chances. Acabou negociado com o Sheffield United por 3 milhões de libras (cerca de R$ 15 milhões, em valores atuais) em 2009. Foi por este time que atuou pela última vez em 14 de abril de 2012.

Evans e o também jogador Clayton MacDonald foram acusados de estupro de uma garçonete galesa de 19 anos, em 2011. Eles não negam terem feito sexo com a mulher, mas alegam que foi consentido. O tribunal julgou que ela estava bêbada demais para concordar com o ato, o que sempre foi negado pela dupla. Durante o julgamento, os advogados de Evans apresentaram especialista que atestou que o nível de álcool encontrado no sangue da vítima seria o suficiente para que ela ficasse com a voz arrastada e com dificuldades de equilíbrio, mas que era “pouco provável” que tivesse perda de memória, como alegou. A procuradoria contestou o parecer.

MacDonald foi absolvido. Evans condenado.

Karl Massey, sogro do atacante, começou a trabalhar pela anulação do julgamento ainda enquanto o genro estava preso. Milionário, é dono da Nimogen Ltda, empresa que cuida da venda de joias e relógios em lojas especializadas e faturou 10,8 milhões de libras (cerca de R$ 54 milhões) no ano passado.

Ele contratou um detetive particular para procurar evidências ignoradas pela polícia. Chamou a Bird Consultancy para mudar aos poucos a imagem e representar Evans. Mudou os advogados que cuidavam do caso.

Procurado pelo LANCE!, Massey não foi encontrado para dar declarações.

Em janeiro deste ano, nasceu o primeiro filho de Evans com Natasha Massey, filha de Karl.

Foram anos de agonia especialmente para a vítima, que não foi identificada, como é de praxe em casos de estupro. Uma foto postada por ela em redes sociais antes do caso foi descoberta e compartilhada na Internet. Ela recebeu constantes ameaças e assédios. Mudou de casa cinco vezes desde a condenação. Recebeu nova identidade e saiu do Reino Unido.

Chad Evans com a camisa do Chesterfield
Chad Evans com a camisa do Chesterfield (Divulgação)


Antes do Chesterfield, cinco times quiseram contratar Evans após a libertação. O Sheffield United recebeu abaixo-assinado com 160 mil nomes contra o “reforço”. Personalidades britânicas protestaram. Jessica Ennis-Hill, medalha de ouro do heptatlo na Olimpíada de 2012, em Londres e homenageada com uma arquibancada em Bramal Lane, estádio do clube, avisou que pediria que seu nome fosse retirado do local. Reações parecidas aconteceram quando Hartepool, Oldham e Grimsby Town mostraram interesse.

O Hibernians, de Malta, propôs levá-lo para o país, mas os problemas na Justiça impedem que Evans trabalhe no exterior.

- Nós não temos dúvida que Ched Evans deve ser bem-vindo de volta à condição de jogador profissional. Nós o contratamos depois de muita deliberação – disse o presidente do Chesterfield, Dave Allen, em comunicado divulgado pelo clube.

Há uma cláusula no contrato do atacante que libera a equipe de pagá-lo às 2 mil libras por semana (cerca de R$ 10 mil) se for novamente condenado.

Após a estreia, Evans deve continuar em silêncio. Assim como os dirigentes da equipe, treinador, seus representantes e advogados. Até outubro, ninguém terá nada a dizer.