RADAR / LANCE!
06/12/2017
15:46
Nova York (EUA)

Entre idas e vindas, o julgamento de José Maria Marin transcorre no Tribunal do Brooklyn (EUA) desde 6 de novembro. O ex-dirigente da CBF, que se diz inocente, foi acusado de três crimes de fraude, três de lavagem de dinheiro, além de associação em organização criminosa.

O LANCE! traz agora alguns dos detalhes do que ocorreu até o momento no julgamento, que também coloca no banco dos réus o ex-presidente da Conmebol, Juan Angel Napout, e Manuel Burga, ex-presidente da FPF (acusados pelos mesmos crimes e que também se declaram inocentes).


PRIMEIRA SEMANA

Os primeiros passos da defesa de Marin buscaram desvincular o ex-dirigente do atual presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, em relação a acusações de propinas. Os representantes de Marin disseram que ele sempre foi visto como interino.

Na época, o atual mandatário da CBF negociava um pedido de habeas corpus para viajar até os Estados Unidos sem risco de prisão. Seus advogados estavam presentes para saber os rumos do julgamento.

SEGUNDA SEMANA

Vieram as primeiras revelações de testemunhas. Em uma delas, Alejandro Burzaco (ex-CEO da empresa Torneos y Competencias) acusou a Rede Globo de se unir à emissora Televisa para pagar US$ 15 milhões de propina em troca dos direitos de transmissão as Copas de 2026 e 2030. O argentino contou que o acordo, costurado em 2013, seria destinado a Julio Grondona, dirigente argentino que já faleceu.

Burzaco também citou que o então executivo da Rede Globo, Marcelo Campos Pinto, de participar de uma reunião em Buenos Aires para tratar de acordo com Marin e Del Nero por direitos de transmissão de Libertadores e Copa Sul-Americana.

O argentino afirmou que Marco Polo Del Nero é quem tomava as decisões mesmo quando José Maria Marin era mandatário da CBF. No entanto, o ex-ceo da TyC, afirmou que os pagamentos de propina eram negociados por Marin e Del Nero da mesma forma que foi com Ricardo Teixeira. A diferença é que Teixeira pedia US$ 600 mil, enquanto Marin e Del Nero, juntos, pediam US$ 900 mil.

Em todo o seu depoimento, o argentino afirmou que, desde 2006, a empresa pagou cerca de US$ 160 milhões em propinas a 30 dirigentes da Conmebol e da Concacaf. As quantias se referiam a Libertadores, a Sul-Americana e a Copa América.

TERCEIRA SEMANA

A acusação se voltou para Manuel Burga, acusado por duas vezes de ter simulado gestos de degola para Alejandro Burzaco. No mesmo dia, Santiago Peña, ex-funcionário da empresa Full Play, declaoru que a empresa pagou propinas a vários dirigentes da América do Sul em troca de direitos de transmissão.

As partidas seriam das Eliminatórias da Copa de 2014 e 2018, além de edições da Copa América e Libertadores. Entre os nomes citados estavam Juan Angel Napout, Manuel Burga, Luis Chiriboga (ex-presidente da Federação Equatoriana de Futebol), Carlos Chavez (ex-presidente da Federação Boliviana de Futebol), Sergio Jadue (ex-presidente da Federação Chilena de Futebol), Rafael Esquivel (ex-presidente da Federação Venezuelana de Futebol) e Luis Bedoya (ex-presidente da Federação Colombiana). Para se referir aos então dirigentes, a empresa usava marcas de carros.

Em paralelo ao julgamento, o Comitê de Ética da Fifa baniu três dirigentes envolvidos no escândalo da Fifa de 2015: Richard Lai, ex-presidente da Federação de Futebol de Guam e ex-membro do comitê de audição da Fifa, assim como Rocha, ex-presidente da Federação da Nicarágua, e Rafael Esquivel, ex-presidente da Federação Venezuelana,


QUARTA SEMANA

Já na semana seguinte, foi a vez do ex-presidente da Federação Colombiana de Futebol, Luis Bedoya, admitir que recebeu propinas entre 2007 e 2015 para realização de jogos amistosos e assinaturas de contratos da TV e Conmebol. Além disto, afirmou que Napout e Burga receberam subornos. O delator ainda acusou o ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira, de ser "um dos três dirigentes mais corruptos" da Conmebol, ao lado de Julio Grondona e Nicolás Leoz.


Além disto, diversas planilhas foram apresentadas no Tribunal do Brooklyn. Durante o depoimento de Eladio Rodrigues, testemunha e ex-funcionário da empresa Torneo y Competencias (TyC), foi divulgado um documento que indicou pagamento de 1 milhão de dólares para Marcelo Campos Pinto, responsável por contratos de transmissões de partidas de futebol da Rede Globo até 2015.

Também foi divulgado um pagamento pela Rede Globo no valor de 10 milhões de dólares para a T&T (empresa offshore do grupo Torneo y Competencias, que era acusada de envolvimento em propinas). Eladio Rodrigues ainda esclareceu que pagou 4,8 milhões para José Maria Marin e Marco Polo Del Nero em troca de benefícios nos contratos de Copa América, COpa Libertadores e Copa Sul-Americana.

A defesa de Teixeira rechaçou hipótese de acordo com os Estados Unidos. Segundo Michel Assef Filho, advogado do ex-presidente da CBF, as acusações "não são compreendidas".

QUINTA SEMANA

Vieram à tona detalhes do depoimento de José Hawilla. O dono da Traffic apontou como subornava dirigentes esportivos desde 1991. Além de direcionar suas acusações para Ricardo Teixeira e Nicolás Leoz, o ex-empresário detalhou que pagou propinas entre US$ 1 milhão e US$ 3 milhões para que a Seleção Brasileira escalasse força máxima na Copa América. Já com relação ao ex-presidente na Conmebol, a propina entre US$ 400 mil e US$ 600 mil por direitos de transmissão da mesma competição.

No dia seguinte, Hawilla divulgou à Suprema Corte do Brooklyn gravações de conversas com o ex-presidente da CBF, José Maria Marin, e Kleber Leite, dono da Klefer. Os assuntos abordados foram pagamento de propinas e também a forma como seriam as divisões do valores entre Marin, Ricardo Teixeira e Marco Polo Del Nero.

Nas conversas, Hawilla perguntava a Marin se ele considera que Ricardo Teixeira deveria ganhar o dobro do que ele e Del Nero. A propina custaria R$ 2 milhões. Metade deste valor iria para Teixeira, enquanto Marin e Del Nero receberiam R$ 500 mil, cada um.

A semana ainda trouxe a presença inusitada do cantor Kevin Jonas como uma das testemunhas do "caso Fifa". O ex-integrante do grupo Jonas Brothers confirmou a realização de um show de Paul McCartney em Buenos Aires, em 2010. De acordo com as investigações, o empresário Santiago Peña, da Full Play, ofereceu US$ 10 mil em ingressos a Juan Ángel Napout, ex-presidente da Conmebol. Este valor teria feito parte de pagamento de propina por liberação de direitos de TV e broadcast da Copa Libertadores e da Copa América até 2015.

Além disto, o depoimento do agente da Receita Federal dos Estados Unidos (IRS), Steve Barryman, revelou que uma operação policial realizada no Rio de Janeiro em 2015 trouxe provas que evidenciaram propina a Marco Polo Del Nero, José Maria Marin e Ricardo Teixeira. Bilhetes escritos à mão encontrados na empresa Klefer trouxeram possíveis anotações de pagamentos referentes a competições.  

*Atualização em 8/12/2016, às 15h36