Everton chegou ao Shanghai Shenxin em julho de 2014 (Foto: Arquivo Pessoal)

Everton permaneceu no Shanghai Shenxin de julho de 2014 ao fim (Foto: Arquivo Pessoal)

Lucas Strabko
12/01/2016
07:20
São Paulo (SP)

Enquanto alguns brasileiros vão para o futebol chinês com o objetivo de ganhar muito dinheiro, alguns fogem dele por motivos inusitados. Foi o caso de Everton Ramos da Silva, que atuou nos dois últimos anos pelo Shanghai Shenxin, da Segunda Divisão da China. Após se tornar ídolo do Heracles Almelo, da Holanda, o atacante foi tentar a sorte na Ásia.

- Eu vi muita coisa estranha. Eles arrotam na cara de qualquer um dentro de restaurante, dão aquela levantadinha para soltar pum. Eu via que os chineses eram meio diferentes. Eu me dei super bem com eles, não tenho nada para falar mal. O único negócio era arroto e peido. Qualquer lugar que estavam, não estavam nem aí. Não dá para fazer nada. É virar a cara e tentar não sentir o cheiro. De resto, me dei super bem - conta o brasileiro, que está sem clube no momento, em entrevista ao LANCE!.

Everton chegou a China na metade de 2014, após passagem pelo Al-Nassr, da Arábia Saudita. Em Shanghai, uma das maiores cidades do país, teve somente dois brasileiros como companheiros de time: o atacante Zé Love e o zagueiro Johnny. A princípio, a língua foi um problema, principalmente pela "ousadia e alegria" dos chineses e dos taxistas nervosos.

- Tentei aprender chinês, mas os caras só ensinavam palavrão. Tem tradutor e você fica mais largado. Aprendi a falar um monte de palavrão. Estava lendo algumas coisas em inglês. O cara para aprender chinês deve ser desenhista. Vai pegar táxi, fala inglês e ninguém entende. Eu falava: "Não entendo, não falo chinês". O taxista começou a gritar. Eu falei que não era surdo - diz o atacante, que começou a carreira profissional pelo Barueri, em 2003.

Além da língua e das flatulências, outra situação incomodava Everton: a cultura alimentar na China.

- Fui tirar o visto em Hong Kong. A mulher foi me levar para comer cachorro. Tudo o que ela pedia, eu perguntava. Primeiro chegou o arroz. Se tacasse na parede, quebraria a parede. Só papa. Daqui a pouco chegou carne diferente. Eu falei: "Sério?". Ela disse: "Por que você não gosta?". Eu tenho cinco cachorros, eu adoro cachorros. Ela pediu desculpa. O povo quer saber como é, quer experimentar. Eu só como frango, carne bovina. Tudo que se mexe, eles comem. Minha esposa viu espetinho de rato. É muito nojento.

Dentro de campo, a dificuldade não era muito grande, afinal, o nível do futebol chinês ainda é fraco, como afirma o brasileiro. Em sua última temporada na China, o atacante fez 16 jogos e 3 gols pelo Shanghai Shenxin, que acabou sendo rebaixado para a Segundona Chinesa.

Companheiros na China foram Johnny e Zé Love (Foto: Reprodução)
Companheiros na China foram Johnny e Zé Love (Foto: Reprodução)

 - Quando cheguei, nos seis primeiros meses, achei amador. Nesse ano, está crescendo muito, investindo pesado. Não em curto prazo, a China vai virar potência. Eles me pediram muita indicação de jogador. Daqui a pouco, a China vai melhorar. O nível a gente sabe que é fraco. Eles estão gostando muito de futebol e adoram os brasileiros. Brasileiro que abrir escolinha de futebol, fica milionário lá.

Um dos rivais do Shanghai na próxima temporada será o Tianjin Songjiang, do treinador Vanderlei Luxemburgo, que também disputará a divisão inferior do futebol chinês. O brasileiro, talvez, possa dar lições aos técnicos locais.

- Tive dois treinadores chineses. Foram meus piores treinadores. Era mais complicado. Eles tentavam assistir vídeo para dar treino para a gente. Um deu 365 coletivos no ano. Nunca fiz tanto coletivo na China. Ano passado, pegamos um treinador que dava coletivo com a mão. Só podia pegar com a mão e fazer gol de cabeça - completa Everton, sob risos.