Isha Johansen - presidente da federação de Serra Leoa (foto:AFP)

Isha Johansen é  presidente da Federação de futebol de Serra Leoa desde 2013 (foto:AFP)

Alex Sabino -
18/02/2016
08:30
São Paulo (SP)

Isha Johansen suspira antes de compartilhar o que é ser uma mulher em posição de poder no futebol africano. O tom é de resignação.

- Sexismo, abuso e tentativas de intimidações fazem parte das coisas que tenho de enfrentar diariamente – ela comenta, em entrevista ao LANCE!.

Em programa de rádio, ex-dirigente a chamou de “prostituta” ao vivo. Um colunista a descreveu como “desgraça para todas as mulheres”.

- Francamente? Tudo isso catapultou a minha fama internacionalmente porque nem diante de ofensas eu mudei minhas convicções. Acredito que me tornei mais forte.

Desde 2013, Isha Tejan-Cole Johansen, 51 anos, é a presidente da federação de Serra Leoa. A única mulher a comandar uma confederação nacional no mundo do futebol. Foi eleita em pleito conturbado, em que os outros candidatos foram impugnados por irregularidades. Ter sido eleita “sozinha” causou rancor e lhe trouxe adversários políticos que duram até hoje.

É como lutar contra a Hidra de Lerna, personagem da mitologia grega em que, quando uma cabeça é cortada, nascem duas em seguida. Johansen, educada em Londres e casada com um norueguês, ainda tenta organizar o futebol profissional do país no meio do caos. Na década de 90, Serra Leoa passou por guerra civil que matou 50 mil pessoas. O trauma ainda é visível em parte da população de 6 milhões.

Assim que assumiu o cargo e começou a colocar seus planos em prática, a presidente teve de lidar com outro problema: a epidemia de ebola que aterrorizou parte da África e fez com que outras seleções se recusassem a enfrentar Serra Leoa.

- Ebola foi simplesmente um pesadelo. Um pesadelo psicológico que nos colocou no limite. O futebol teve de parar assim como o país teve de parar. Foi um momento em que o nosso povo foi espetacular. Eles já estavam cansados de tudo, já tinham passado pela guerra e não tinham para onde correr. Mesmo assim, se mantiveram unidos para superar essa situação.

As partidas em que a seleção era mandante tiveram de ser jogadas em outros países. As outras torcidas gritavam “ebola” para os jogadores de Serra Leoa. Adversários se recusavam a trocar uniformes e alguns não aceitavam nem apertos de mãos. A epidemia não foi capaz de unir os adversários pelo bem do futebol africano.

"Ebola foi simplesmente um pesadelo. Um pesadelo psicológico que nos colocou no limite


- Todos os dias há facções no meu país que tem uma rotina diária: tornar a federação ingovernável e fazer a nossa vida desagradável. Mesmo assim, há pessoas que nos ajudam. Gente que poderia facilmente ter desistido, se cansado do caos ou passado para o outro lado. Mesmo assim, continuam nos apoiando e lutando do nosso lado – completa Johansen.

Para ressaltar a ligação de infância, a cartola diz que o esporte está em seu sangue. A família é fanática por futebol, tem tradição no país e seu pai também foi dirigente. Ela é dona do FC Johansen, uma equipe criada em 2004 para dar chance a crianças pobres da cidade de Freetown. A ideia era tirar os garotos da rua. Em troca da promesa de ir à escola, os meninos recebem uniformes para jogar e comida. Após alguns anos, aconteceu a profissionalização.

Serra Leoa nunca se classificou para a Copa do Mundo. Nem para as finais da Copa Africana de nações. Essa não é a prioridade da presidente. É um sonho tão distante que, por enquanto, não passa disso: um sonho. Não a incomoda. Classificar-se para um torneio continental ou mundial está longe de ser o objetivo número um para Isha Johansen ou para o futebol de Serra Leoa. Há coisas mais importantes.

- Toda o torcedor sonha com isso um dia. Ver o país em uma plataforma global jogando na Copa do Mundo. Esse momento vai chegar. Está nas nossas visões e nos nossos sonhos. Não é nossa prioridade. Precisamos de estrutura, de pessoas empenhadas e de nos livrar de velhos hábitos de gente que esteve na federação no passado.


“Velhos hábitos” é uma expressão que a presidente gosta de usar. Neste caso, se refere a uma das maiores preocupações no futebol africano: resultados forjados. Denúncias já aconteceram no passado.

- Há muito a ser feito. É uma luta para balancear educação, disciplina e integridade. Não é brincadeira, nós voltamos à prancheta para recomeçar o futebol de Serra Leoa, mas precisamos nos livrar de pessoas que só querem atrapalhar.

São declarações e pessoas que lhe renderam inimigos não só no país como no continente. Mas ser a única mulher presidente entre as 209 federações nacionais filiadas a Fifa aumenta seu poder de fogo, especialmente em momento em que a entidade que comanda o futebol está manchada pelas denúncias de corrupção e busca novos rostos. Um recomeço. Isha Johansen sorri porque ela sabe representar tudo isso.

- Qualquer coisa é possível no futebol. Se chegar um momento em que acreditem que eu possa atingir posições mais altas no mundo do futebol por meu próprio mérito, por que não? Acredito que inspirei mulheres a se envolverem. Há espaço para mulheres no mundo do futebol. Tanto para jogar quanto para administrar. Eu quero administrar. Minha jornada tem sido emocionante e quero que continue assim.

Entre ofensas, dificuldades, epidemias, guerras e adversários, Isha Johansen sonha alto. Um sonho que, no fim ela admite, vai além do futebol e ultrapassa as fronteiras de Serra Leoa.



Bate-Bola com Isha Johansen – presidente da Federação de Serra Leoa

1. Como tem sido a sua experiência como presidente da Federação de Serra Leoa?

Tem sido o que se pode esperar em um país que ainda tem problemas em aceitar mulheres em posições de liderança. Futebol é uma dessas áreas e a maioria dos países teria problemas porque o esporte é dominado pode homens. Aos poucos, as coisas estão mudando. Tem sido difícil, mas com o tempo aprendi a entender o que liderança representa, sem abrir mão dos meus princípios de governança e integridade.

2. Futebol pode ser um ambiente sexista e hostil. Enfrentou problemas nesse aspecto?

Sim, claro. Eu simplesmente me distancio e tento tirar a negatividade da minha frente. No passado, tentei trabalhar com algumas dessas pessoas, mas a impressão é que há gente que não quer união.

3. É impensável, no momento, ver Serra Leoa em uma Copa do Mundo?

Parece um obstáculo intransponível, mas não é. Nós precisamos construir nosso futebol a partir das escolas, conter apostadores que querem tirar vantagem, empresários sem escrúpulos que querem tirar vantagem da pouca educação dos garotos e fazem falsas promessas a eles e aos pais para levá-los à Europa. Apesar dos nossos poucos recursos e problemas financeiros, sei que os nossos garotos têm grande talento e resistência inigualável. Eles entram em campo para mostrar que podem e geralmente, conseguem.

4. Qual acredita que será o seu legado quando deixar de ser a única mulher presidente de uma federação nacional de futebol?

Muitas coisas. Estou sempre me movimentando, planejando e fazendo coisas. Mas o que mais me orgulho é o Powerplay, uma iniciativa apoiada pela Confederação Africana que almeja dar poder e inspirar meninas a atingir o máximo potencial econômico e social pela participação no futebol. Quero usá-lo para promover a igualdade entre homens e mulheres em cargos de liderança dentro e fora do esporte. Usar valores do próprio futebol para beneficiar a promoção de mulheres no futebol e entender as barreiras que impedem que isso aconteça.