Marcello Neves e Thaynara Lima
17/04/2018
08:00
Rio de Janeiro (RJ)

Em março deste ano, a jornalista Vanessa Riche conversou com o LANCE! e declarou que 'era preciso uma mulher narradora'. A fala faz referência ao projeto ‘Narra quem sabe’, do Fox Sports, que vai escolher três mulheres para ser a cara do canal na Copa do Mundo. Com isso, o L! conversou com as selecionadas Natália Lara, Manuela Avena, Luciana Zogaib, Isabelly Morais e Renata Silveira - e a entrevistada desta terça-feira, Gaby de Saboya.

Formada em jornalismo, a alemã se apaixonou pela TV ainda na faculdade e conta que tem o sonho de narrar uma Copa do Mundo. Gaby nasceu em Berlim, mas veio para o Brasil quando ainda tinha dois anos. Seus pais foram exilados durante o período da ditadura militar, quando se mudaram para o Chile, onde nasceu sua irmã. Com o golpe do Pinochet, a família de Gaby mudou-se para a Alemanha, onde permaneceram por 15 anos, neste período, Gaby nasceu.

— Eu vim com dois, me sinto completamente carioca. A primeira referência que que tenho do Brasil é a copa de 82 — contou a candidata, antes de falar sobre o 7 a 1 — Nossa, foi um inferno a minha vida. Neste dia eu passei muito mal e nem quis beber. Quando começaram os gols, meus amigos começaram a dizer “você sabia. por isso não quis beber com a gente, queria comemorar sozinha”. Eu falei, “gente agora só me resta torcer para a Alemanha, mas até então, eu estava torcendo para o Brasil”. Eu torço pro Brasil, a Alemanha é meu segundo time.

Gaby de Saboya
Gaby de Saboya tem 38 anos e sempre teve o sonho de narrar uma partida de futebol  (Foto: Thaynara Lima)

Das seis selecionadas, apenas três vão ser escolhidas para narrar os jogos do Brasil na Copa do Mundo. Elas vão receber treinamento na sede do Fox Sports, no Rio de Janeiro, e os nomes serão divulgados no dia 15 de maio. Gaby conta que sempre sonhou, mas não via espaço para mulheres na narração e que demorou a acreditar que o processo seletivo ‘Narra quem sabe’ era real:

— Eu sempre sonhei em narrar uma copa do mundo pois eu amo futebol. Mas se eu disser que pensava que ia narrar uma copa do mundo, eu vou estar mentindo. Eu pensei assim “Nessa vida eu não vou conseguir mais, na próxima eu consigo”. Eu participei de um processo seletivo de outro canal, que era entre homens e mulheres, eu fui até a semifinal, mas depois só ficaram homens — contou a candidata.

— Vi o ‘Narradoras’ da Fox Sports, mas eu não acreditava muito. Então, eu mandei 11h da noite e acabava meia noite. Mandei no último minuto, gravei achei uma merda. Mas veio uma coisa assim "se você não der chance pro universo, o universo não vai dar chance pra você". Aí decidi mandar e disse "agora tá com o universo, não é comigo" e desencanei — revelou Gaby — Quando a Vanessa me ligou, minha vontade era de sair correndo pela rua (gritos). Uma coisa que você sonha, um dia está perto de se tornar realidade. Até o dia que eu vim aqui eu não acreditava. Só depois que eu saí daqui com blusa, depois de falar com todo mundo, dar entrevista é que a ficha caiu.

Bate-bola com Gaby de Saboya:

Qual jogo você escolheu enviar para o processo de seleção?
Eu enviei Flamengo e Santos, pois era um jogo que eu tinha assistido e achei muito emocionante. Meu exercício foi pegar um jogo que já assisti, tirar o som do jogo, ligar o telefone, olhar o jogo e gravar. Peguei um jogo que eu já conhecia, para facilitar minha vida e tentei narrar os melhores momentos e o gol. Trazer a parte do gol é sempre difícil na mulher, pois como às vezes puxa mais pro agudo, me incomoda muito. O que eu tentei fazer foi: se eu fosse mulher e estivesse ouvindo uma mulher narrar, o que eu gostaria de ver e ouvir? Qual tom de voz eu gostaria de ouvir? qual tipo de narração eu gostaria de ouvir? Toda a minha referência é masculina e sei o que gosto na narração masculina, mas e na feminina?

Quais seus pontos fortes e fracos na narração?
A positiva é a comunicação junto com a informação. Como eu já trabalho como jornalista eu tenho essa coisa da comunicação e da informação e sei passar e transmitir isso. A negativa, agora, é decorar nomes dos jogadores nessa tensão toda. Eu já tenho dificuldade de decorar nomes, eu tenho todo um esquema para decorar e essa tensão de estar narrando me dá branco. Eu vejo o cara, sei o nome, mas não consigo falar.

Como você vê a importância de uma mulher narradora na Copa?
É fundamental! Além da questão das mulheres ocuparem campos e áreas que precisam ser ocupadas, eu acho que nunca teve tanta mulher gostando de futebol. Nunca teve tanta mulher interessada, na Copa do Mundo tem uma mulherada que fica interessada. Porque esse diálogo não pode ser de mulher para mulher? Porque tem que ser sempre de homem para mulher? Será que as mulheres se sentem representadas só com narradores masculinos? Porque não ter também a possibilidade de assistir uma mulher narrando, comentando futebol? Eu, como espectadora, como mulher, adoraria.

Quem é Gaby de Saboya?
Eu sou uma pessoa muito dedicada, estudiosa. Corro muito atrás do que eu quero e tento fazer as coisas com a maior alegria do mundo. Acho que se não tem alegria, se chega um momento que não tem a alegria, o gostar do que está fazendo eu não me identifico. Gosto muito de trabalhar em equipe, de parceria. Estou sofrendo pois nesse pouco tempo, esse grupo já virou um grupo amigo. Cada uma tem sua história de vida e cada uma batalhou muito para estar aqui, como eu batalhei. Eu acho super emocionante estar aqui e sou uma pessoa que gosta de trabalhar com essa emoção, com essa energia.

Palpites para a Copa do Mundo:
Final da Copa do Mundo: Brasil e Alemanha
Campeão: Brasil
Craque: Messi
Artilheiro: Neymar
Decepção: França