Bernardo Cruz e Matheus Dantas
20/09/2016
08:05
Rio de Janeiro (RJ)

Magno Alves é o retrato de uma época do futebol brasileiro que ainda tenta sobreviver nos dias atuais. Aos 40 anos, o atacante continua a exibir o talento e alegria de um menino apaixonado pela modalidade. Mas é na sinceridade com que relembra sua vitoriosa trajetória que se diferencia de grande parte dos jogadores profissionais da atualidade.

Franco, ele revisitou sua carreira no esporte em entrevista ao LANCE!. Disse que o futebol atual anda muito careta, relembrou parceiros e gols inesquecíveis. O Magnata ainda colocou uma possível aposentadoria com a camisa do Tricolor, clube onde viveu seu maior momento de protagonista, em dúvida. Mas vê na Copa do Brasil a chance de considerar o que chama de filé mignon para o Flu.

Você é o nono artilheiro da história do Fluminense, o sétimo do Ceará e um dos maiores goleadores em atividade no futebol mundial. Você é um cara que se importa com esse tipo de estatística? Representa algo importante?
Muita coisa. Vejo pela minha vida, pela minha história. Venho de uma cidade pequena (Aporá, na Bahia), desacreditado por muitos. Primeiramente eu agradeço a Deus. Tenho 40 anos com saúde, jogando em uma equipe grande, isso demonstra a força que tenho para estar me sobressaindo diante de tantos jovens. Ainda mais no futebol brasileiro, que tem esse certo preconceito de chegar a uma certa idade e as pessoas já tentarem te desclassificar. Sou muito concentrado no que faço e dou o meu melhor, porque sei que é a minha história. Sonhei com isso, tornou-se realidade. Então poque vou deixar esse dom que Deus me deu e não vou aproveitar? Muitos jogam fora. Nós somos privilegiados, porque a gente joga, faz por amor, e ainda recebe.


O preconceito com jogadores que passam dos 30 anos ainda existe então, mesmo com exemplos na ativa como você que ainda atua em alto nível por um grande clube?
No Brasil é muito complicado por conta da epidemia, no bom sentido, dos jogadores. São muitos bons jogadores, mas tem alguns casos raros. Seja eu, Zé Roberto, Ricardo Oliveira... Você pega um ou outro, Paulo Baier... É raro, não sei se vão surgir outros. Então vou aproveitar enquanto der e é o que deixo claro nas minhas entrevistas. Eu só não quero enganar, andar dentro de campo. Enquanto eu estiver bem, com saúde, me sentindo bem e correndo, vou continuar. Porque isso eu não falo, demonstro dentro dos jogos e nos treinamentos.

Essa sua entrega foi o que cativou a torcida desde de sua primeira passagem e te colocou como ídolo da história recente do Fluminense?
Tem alguns torcedores que eu pago, né? (risos) Brincadeira... Acho que é a história, momentos ruins que vivemos juntos. A torcida sofreu, estivemos lá na Série C... É muito fácil quando você está comendo só filézinho. As pessoas te veem hoje e são poucas que querem saber da nossa vida, o que você passou, enfim... Acho que é devido ao trabalho, o esforço, você correndo lá dentro, suando a camisa. Isso faz com que apareça o reconhecimento. É o que procuro fazer com meus companheiros.

"Olha, o Scarpa tá numa ascensão muito boa. Creio que em uns dois anos ele vai estourar. O futuro dele é a Europa com certeza."

Você saiu em 2002, rodou o mundo, voltou para o Brasil em 2010. Esperava que fosse retornar ao Fluminense depois de tanto tempo?
Era uma meta que eu tinha. Quando voltei ao Brasil em 2010 queria voltar para cá, mas não aconteceu. Foi acontecer ano passado. Nem tudo é como nós queremos, e tudo tem seu devido tempo; Mesmo com esse assunto de idade, vim para cá com 39 anos, um clube grande como o Fluminense contratar alguém com 39 anos? Só aí já demonstra que é uma coisa de poucos casos no futebol. Realizei, retornei, agora é dar prosseguimento até o dia que chegar o final. Vamos aguardar.

Como você avalia seu desempenho na temporada?
Esse ano está sendo totalmente diferente do ano passado. Na temporada toda em 205 fiz um gol. Esse ano já fiz oito, mesmo revezando alguns jogos. Mesmo quando muitos pensavam que o time ia cair, porque a Unimed saiu, a gente está indo muito longe, sobretudo se analisar o nível do futebol brasileiro. É a força do grupo. O investimento é importante, é só ver o Atlético-MG, Palmeiras. Mas a gente não tem deixado nada para trás não. Temos feito bons resultados contra os grandes times. É só fazer o relatório.

O que falta para o Fluminense então emplacar boa sequência?
É o futebol né. Não sei dar uma resposta exata. Se pegar os outros times também oscilam. Todos vacilam. No caso do Fluminense são detalhes no futebol que as vezes não podem acontecer. Contra a Chapecoense, por exemplo, se eles foram duas vezes foi muito e fizeram dois gols. Martelamos o jogo inteiro e seguiu o tabu contra a Chapecoense. São detalhes que no futebol que vejo que não pode acontecer num campeonato tão difícil. Se pegarmos dois jogos, Chapecoense e Santa Cruz, eram cinco pontos a mais. Onde estaríamos hoje? No G4.

Você viu transformações no Fluminense entre uma passagem e outra pelo clube?
Aquela época era difícil até de conversar. Mesmo com a Unimed, que assumiu em 1999, havia uma desorganização muito grande. Defeitos todos têm, erros todos cometem, mas desde 2010 para cá, você vê que é totalmente diferente. Laranjeiras não mudou muita coisa. Está mudando agora com essa gestão. O CT é impressionante, o que vai acontecer. Vão ver o Fluminense com outros olhos. Assim como a organização, tanto é que são dois brasileiros de 2010 para cá. A mentalidade evoluiu e acho que isso é muito importante, principalmente para o futebol carioca, que é tão desgastado pela mídia, tantos clubes aqui no Rio de Janeiro não ter um estádio. Acredito que isso começa a mudar.

Se sente como um dos responsáveis por iniciar essa mudança no Tricolor?
Sozinho ninguém chega a lugar nenhum. Vamos dizer que eu sou um tijolinho. Não me desprezando, mas é só olhar a história, é só ver a época de Série B, Série C. Ali chegamos ao caos, depois ressurgimos. Assim foi em 2000 com a Copa Havelange, 2001 cheguei à Seleção Brasileira. E sempre estivemos ali perto de um título em 2001 e 2002 chegamos à semifinal, ficamos pertinho. Creio que meu nome já está na história, mas eu quero mais. Imagina, ser campeão brasileiro, já tenho alguns títulos, Primeira Liga, mas o Brasileiro a Copa do Brasil, é um sonho.

"Profetizaram né (apelido Magnata). Segundo os que dizem é o cara que tem muito, então eu to recebendo (risos). Rico em gols. Pego os dois, pego esse pacote ai."

Você falou sobre chegar perto do título brasileiro em 2002. O adversário onde o Fluminense parou na semifinal foi o Corinthians, rival do duelo de amanhã. Seria um gostinho especial avançar na Copa do Brasil lá dentro da casa deles?
Sem contar que é mais uma oportunidade de título. É o detalhe do futebol. Foi assim contra o Palmeiras no ano passado, deixou um gosto amargo, mas já está no passado. Independente de fase ruim que eles estão no Brasileiro, sabemos que a torcida invade o estádio. É um jogo que sem dúvida pode ser o inicio de uma arrancada. São dois jogos seguidos, vai ser interessante. Vejo que é decisão, não tem outro jogo. Continua ou para por aí.

Um título na Copa do Brasil seria o filé mignon para o Fluminense no ano?
Claro. Agora só pega time grande. Nas primeiras fases ninguém quer ir lá para Tombense, cidade do interior, com todo respeito, jogamos em Erechim, um frio de lascar. Não sei dizer se felizmente ou infelizmente a gente pegou o Corinthians, porque todo mundo fica torcendo para pegar o time mais fraco. Mas é bom, é jogo grande, a concentração tem que ser maior para a gente não parar no meio do caminho. Podemos aproveitar bem esse momento deles, mas para isso precisamos fazer o nosso.

Até quando acredita que vai jogar em alto nível?

Meu pensamento hoje é de dois anos, até pelo meu biotipo, mas não sei do dia de amanhã.

Seu contrato com o Fluminense vence no fim do ano. No seu mundo ideal gostaria de jogar essa reta final aqui? Acredita que vai renovar?
Posso dizer que sim (cenário ideal), mas creio que é como foi falado no início da nossa conversa, para você manter, com a força que tem as categorias de base hoje em dia, só se for uma coisa meio sobrenatural, devido essa questão. O clube hoje pensa em lançar jogadores novos para vir a ter receita. Então você fica meio assim, será? Pode acontecer... Ainda não fui procurado. Não sei como será o ano que vem. Deus proverá.

Você vem de uma época onde o futebol a provocação sadia era liberada, os atacantes faziam comemorações. Na sua avaliação, estão tentando deixar o futebol careta?
Aquela época era muito mais alegria e descontração. Hoje é muito mais careta. Paralisaram a alegria do futebol. É como o Maracanã sem a geral. Melhoraram algumas coisas? Melhoraram, mas a alegria não. Dou o exemplo da Seleção Brasileira. Raramente você vê alguém com a camisa. Está estagnado. Era tão legal, as dancinhas, foram tirando e agora é uma coisa mais fechada.

Quem na base do Fluminense você vê com características parecidas com a sua?
O Pedro, se trabalhado. É o artilheiro ai na base, se não até do Brasil, são mais de 30 gols. O próprio Richarlison. São jogadores que ainda tem que amadurecer um pouco para estar jogando, é muita pressão.

RAPIDINHAS

Melhor companheiro de ataque - Vejo dois mais marcantes. Roni e Romário né, Roni por mais tempo e Romario é um privilégio você chegar e jogar com o cara. E ele foi o cara mesmo, do futebol em 2002. Fazer gols ao lado dele. Vai ficar marcado na minha história, na minha vida, joguei ao lado dele, fiz gol, recebi passe e comemoramos juntos. Quem é que não queria jogar ao lado de Romário?

Melhor marcador - Gamarra. Para passar dele era duro, muito inteligente. Alguns Fla-Flu, jogamos, mesmo que ele não fosse muito rápido tinha muita experiência, né. Era muito difícil. Júnior Baiano eu não vou nem falar, só faltava dar voadora (risos).

Jogo inesquecível - Por ter sido no Maracanã, contra o Santa Cruz. Marcar cinco gols em um jogo. Não tenho aquele gol mais marcante, eu tenho aquele jogo e os gols, Santa Cruz esse fica marcado para a minha vida, pelo palco que foi. É tudo junto: o jogo, os gols e o estádio inesquecível.