Eduardo Bandeira de Mello

Eduardo Bandeira de Mello, presidente do Flamengo (foto: Wagner Meier)

Luiz Fernando Gomes
12/06/2016
07:45
São Paulo (SP)

Não vamos entrar no mérito da competência do diretor-geral, Fred Luz, do diretor de futebol Rodrigo Caetano ou do “consultor” Fernando Gonçalves. O que menos importa aqui são os nomes. A razão da crise – e não adianta dizer que não existe uma crise – em que o departamento de futebol do Flamengo está mergulhado vai muito além disso. É, antes de tudo, consequência de uma guerra surda de poder, alimentada nos bastidores por uma sucessão de equívocos acumulados nos últimos anos. E o que está em jogo é uma filosofia de trabalho.

Estes três personagens, contudo, estão no olho do furacão. Personificam, com razão, os fracassos rubro-negros. Já tiveram, assim como o vice Flavio Godinho, seus nomes pichados nos muros da Gávea. E são o alvo de um manifesto divulgado esta semana por um grupo de sócios que, entre outras medidas, reivindica a demissão imediata do trio.

Com o presidente Bandeira de Mello desfrutando nos EUA das benesses da CBF, depois de incrivelmente aceitar a função de chefe da delegação brasileira na Copa América, é pouco provável que alguma mudança significativa ocorra até sua volta. Quando reassumir, porém, o mandatário terá de enfrentar, de uma vez por todas, situação que abala o futebol da Gávea: a divisão do grupo político que ficou ao seu lado e o ajudou a ganhar a eleição de dezembro quando uma dissidência da antiga Chapa Azul lançou Wallim Vasconcellos para medir forças no pleito.

O ponto chave é o caminho que Bandeira vai seguir. Há claramente duas correntes em disputa. Um lado quer manter a profissionalização do futebol, independentemente de nomes. Quer executivos contratados gerindo de fato e dando as cartas nas decisões. Que não sejam Caetano ou Luz, mas substitutos que venham do mercado. Essa parece ser a posição do vice Godinho que não morre de amores pelo atual diretor de futebol com quem mantém relacionamento apenas formal. Se tiver o apoio que espera do presidente, Godinho certamente vai trocar Caetano. Mas não vai minar o poder de quem vier no lugar dele.

O problema é o outro lado da moeda. Marcos Braz, vice de futebol de Patrícia Amorim, ganha força entre figurões da situação para voltar a ocupar o cargo, em substituição a Godinho. Hoje no Conselho de Administração, Braz representaria um retrocesso, a volta ao comando do futebol de um tipo de dirigente intervencionista, amador e movido muito mais pela paixão do que pela razão. Não é por acaso que ele conta com o apoio claro das torcidas organizadas – sua volta também foi pedida em pichações na Gávea.

Bandeira, sustentado pelo êxito da gestão financeira, ainda é poupado, ao menos em público, pelas críticas das diferentes alas da política rubro-negra, da maior parte dos sócios e da torcida. Mas, 10 técnicos depois, fracassos como a eliminação histórica da Copa do Brasil para o Fortaleza e a eliminação precoce na Primeira Liga e no Carioca, resta saber até quando essa tolerância vai durar. O que torna mais urgente uma definição dos rumos do futebol, sob pena de comprometer até mesmo o futuro de Bandeira e seu grupo no clube.

Há pouca ou nenhuma representatividade no grupo que redigiu o tal manifesto pró-mudanças. Mas algumas colocações que o documento traz são óbvias e exprimem o sentimento dominante entre os flamenguistas. Todos querem contratações de qualidade – a chegada de Rever e Vaz pode dar um alívio à defesa – e todos concordam que é inadmissível que o Flamengo, como mandante de um jogo em Brasília, tenha a sua torcida praticamente dividindo espaço com a do Palmeiras, graças á uma política equivocada de venda liberada de ingressos, apoiada pela diretoria.

Luz, Caetano e Gonçalves – que do departamento de psicologia, virou eminência parda do futebol – são os responsáveis diretos por boa parte dos erros que jogaram o Flamengo no buraco em que se meteu. É fato. Mas, se está ruim com eles, será ainda pior se corneteiros amadores de plantão tomarem o futebol de assalto. Que saiam, pois. Mas o princípio da profissionalização tem de sobreviver