Cláudio Vernalha - Figueirense

Cláudio Vernalha assumiu a presidência do clube em meados do ano passado (Foto: Luiz Henrique/Figueirense)

Alexandre Guariglia
06/04/2018
07:45
São Paulo (SP)

Buscar a profissionalização não é uma tarefa fácil no futebol brasileiro, mas ainda há quem acredite e tente fazer algo diferente para mudar a cultura do esporte mais popular do país. Esse é o caso de Claúdio Vernalha, dono da Holding Investimento, que assumiu o Figueirense em meados do ano passado e trabalhou para que o clube se transformasse em Sociedade Anônima, ou seja, uma empresa com fins lucrativos cujo capital financeiro é dividido em ações no mercado, modelo inédito entre os que disputam a Série A e a Série B do Brasileirão.

Atual presidente do Figueira, Vernalha chegou com a responsabilidade de, em um primeiro momento, sanear as dívidas e equacionar a situação financeira do clube, sem que isso deixasse as questões esportivas em segundo plano. Os resultados já começam a acontecer e consequentemente dão tranquilidade para o trabalho ser desenvolvido. Além de ter conseguido a permanência na Série B em 2017, os catarinenses estão na final do campeonato estadual contra a Chapecoense, que será disputada neste domingo.

- Está sendo feita uma gestão profissional, com resultados administrativos e esportivos. Então não acredito que tenha sido sorte o que aconteceu, porque até para contratações há comitês distintos para serem aprovadas, não tem intervenção administrativa no futebol, há uma fiscalização, mas não intervenção. Isso não existe aqui, então eu acho que é uma filosofia adequada, porém completamente distinta do futebol latino-americano, não só de Brasil - disse Vernalha em entrevista ao LANCE!

A oportunidade de entrar no futebol desta maneira, porém, não era algo planejado pelo advogado, que também é conselheiro de fundos de investimentos dentro e fora do Brasil. O que era para ser uma ajuda pontual ao clube, transformou-se em grande negócio após conversa com antigos dirigentes do clube.

Em princípio, a ideia dos mandatários do Figueira à época era pedir emprestada uma quantia em dinheiro para que as dívidas mais urgentes fossem pagas, já que não havia mais crédito com os bancos. Na visão de Vernalha, seria apenas um paliativo, pois logo em seguida o clube precisaria de mais e mais empréstimos. Foi aí que os planos mudaram.

- Na verdade eles já tinham transformado o clube em empresa. A gestão era de uma associação, que detinha 99% do clube e quem mandava era o presidente do clube naquele momento, ou seja, toda a gestão continuava com a política do clube, você tinha uma associação, com um 'conselhão', que fazia seus conchavos para eleger presidentes, diretores, etc, só que com uma carcaça de empresa. Estava ali uma grande oportunidade, em que o clube já era registrado com empresa, os atletas já eram vinculados à empresa e não à associação. Aí eu fiz uma outra proposta, dizendo que eu queria assumir o negócio, precisaria fazer algumas verificações, para saber qual era a verdadeira situação do clube, para ver se nos interessaria. Criamos um período de transição e aí a gente tomaria a decisão se ficaria com o negócio ou não. Nós apresentamos uma proposta para ter o direito sobre a empresa que tinha o clube por um período de 20 anos, renováveis por mais 15, como se fosse uma concessão, não um arrendamento. Assumimos, fizemos duas auditorias nesse período, descobrimos que a dívida era muito maior, porém passível de ser saneada - contou o dirigente.

No entanto, o início de trabalho no clube não foi fácil e contou com, segundo Vernalha, um erro na montagem do grupo que participou desse período de adaptação. Embora alguns membros já tenham sido desligados, o técnico Milton Cruz, escolhido naquele época, permanece no Figueirense e tem sido responsável pelo processo de reestruturação esportiva.

- Montamos um grupo, tivemos um equívoco no começo, trouxemos uma pessoa, o Alex Bourgeois, que se dizia muito entendida, que tinha sido diretor do Santos, do São Paulo, e no final descobrimos que o currículo dele era uma fraude. Ele trouxe uma equipe, que por sinal não sobrou quase ninguém, Fred Mourão (gerente de marketing), Márcio Gomes (diretor comercial)... E esse período durou 60 dias. Aí o Milton Cruz foi o escolhido para ser o nosso técnico, pelo histórico e por ter passado por vários lugares no futebol, ele começou a desenvolver o trabalho, nós gostamos e ele chegou para mim dizendo que o clube era muito legal, que o elenco estava inchado e precisava mudar algumas coisas, então eu disse para ele começar a ver essas coisas enquanto a gente definia o novo diretor de futebol. Eu acabei assumindo a presidência do clube, porque quem veio para fazer isso era o Alex - declarou.

A partir dessas mudanças no planejamento inicial, foi possível dar continuidade ao projeto. Vernalha então tratou de transformar o clube em Sociedade Anônima, ou seja, uma empresa que reparte seu capital em ações, algo raríssimo no futebol brasileiro.

- Descobrimos que a dívida era maior, mas possível de ser solucionada a médio prazo, começamos a trabalhar, a mudar tudo isso, preparamos o projeto como a gente sempre imaginou, transformar o Figueirense em Sociedade Anônima para capacitá-lo para receber investimentos, independentemente do modelo. Reestruturamos 'societariamente' e administrativamente o negócio, tivemos o prazer de ter um estafe muito bom e organizado aqui dentro, aí só determinamos as diretorias, os líderes de cada área, o que vem dando resultado. Então o projeto que a gente topou teve a transição, vimos que era factível, a associação ficou com 5% do negócio e a Holding Investimento tem 95%. A estrutura ficou assim - explicou o presidente.

Para os olhares mais desconfiados em relação ao negócio, Vernalha tenta mostrar que o objetivo principal não é negociação envolvendo jogadores, mas sim fortalecer a marca e o clube a fim de, no futuro, tornar os ativos mais valorizados.

- A gente está concluindo a transformação em Sociedade Anônima e vem atraindo os olhares de muita gente, principalmente fora do Brasil, não para fazer aquisições, mas para fazer parcerias comerciais e esportivas. Não sou empresário de jogador e a nossa visão é mais ‘clubista’, nós não estamos aqui para ganhar dinheiro com compra e venda de jogador. A ideia é fortalecer a marca e valorizar o todo, ou seja, eu tenho um clube fortalecido, mais divulgado, com mais nome e que ganhe títulos, naturalmente eu vou ter um elenco valorizado desde a base até o profissional, então qualquer negociação se torna mais interessante, essa é a ideia do negócio e ela vem acontecendo - concluiu.

Confira a entrevista completa com Cláudio Vernalha, presidente do Figueirense:

Por que te atrai o investimento no futebol? É o desafio em um meio tão desorganizado ou a possibilidade de desenvolver o negócio?
Sem dúvida eu acredito que pode melhorar. Você pode comparar.. eu não estou inventando nada. Se você pegar os clubes europeus, da Ásia e Estados Unidos hoje. Se você pegar os clubes europeus há alguns anos, você tinha o mesmo perfil que temos hoje no futebol brasileiro, mas eles decidiram se profissionalizar. Decidiram fazer algo de forma diferente porque é algo muito rentável e ao mesmo tempo pode manter a paixão da torcida pelo futebol em um nível diferenciado no esporte. O que eu quero dizer com isso… Você tinha um Mundial de Clubes jogando Barcelona e São Paulo e você não sabia quem ia ganhar. A diferença é que eles investiram, se prepararam, se organizaram, deixaram o viés politico mais de lado, criaram regras de profissionalização, de aplicação de governança dentro dos clubes… Eles evoluíram e nosso futebol estagnou. Tanto que, se você pega o Manchester United hoje, vê que eles faturam muito mais que o Palmeiras fatura, que tem uma grande estrutura no Brasil, é exemplar para o Brasil hoje. Você vê que eles faturam muito mais. Além disso, a valorização dos atletas por estarem lá é muito maior. O mesmo jogador que aqui custa dez, lá custa cem. Basta pisar lá e você sextuplica o valor do atleta por ser uma marca muito mais forte e levada muito mais a sério. É um negocio que pode gerar muito dinheiro pra quem estiver tomando conta, for dono ou estiver gerindo. Não é do dia pra noite, não pode ser no longo prazo brasileiro, que é de um ano. Tem que ser literalmente longo ou médio prazo. Entre cinco e oito anos para começar a ter lucro efetivamente. Eu consigo melhorar muito a questão de receita, ter um clube saneado, competitivo, almejando outros desafios que nunca passaram na história do clube, apesar de ser quase centenário, e que vai valorizar a marca e quem estiver aqui dentro. Então tem um viés business para o negócio, de ganhar dinheiro nisso, mas em geral há a valorização do clube não só focado na compra e venda dos jogadores.

Como você pensa, olhando para o clube, em competir com essas outras potencias do futebol brasileiro?
A torcida do Figueirense é a maior do estado hoje. O modelo de ampliação de torcida é mais difícil que no passado. Você tem modelos de clubes com origens em regiões muito menores, mas com grandes torcidas hoje. Se você for diferente positivamente, mais forte, organizado, que revela bons jogadores, que é atrativo porque paga em dia, porque tem estrutura saudável para os atletas virem, se os atletas sabem que eles não vão ser colocados para trás porque um empresário coordena a estrutura do clube, ou seja, só jogador daquele empresário que ganha o direito de jogar enquanto os outros são preteridos. Se você transforma isso, você se torna atrativo para bons jogadores. Você se torna atrativo para jogadores mais jovens e se torna competitivo para os chamados grandes cubes do Brasil. Até essa parceria entre outros clubes europeus e você ser mais atrativo, você ganha uma série de vantagens. É uma outra época, mas o Manchester United, por exemplo, começou na cidade de Manchester, com 300 mil habitantes, conseguiu desenvolver buscando torcida não em Londres, roubando torcedor do Arsenal, mas buscando torcida onde não há paixão por determinado time. Florianópolis é um exemplo disso. Sempre teve Avaí e Figueirense e a população, até pouco tempo, torcia para times do Rio de Janeiro. Então você tem o resto do estado de Santa Catarina e até fora do estado para aumentar o número de torcedores. Esse é o ponto. O viés comercial é mal explorado no Brasil. Se você estiver estruturado para criar marketing e vir a parte comercial de compra e venda de produtos, se trabalhar isso de forma diferenciada, você aumenta a receita e atrai mais gente. Então você, no médio prazo, passa a ser tão competitivo quanto clubes grandes no Brasil e, naturalmente, acaba crescendo seu clube também.

Já foi procurado por outras entidades por conta do modelo que estão implantando no Figueirense?
Alguns clubes da Europa nos chamaram para conversar dizendo que não têm parcerias com clubes brasileiros, mas com esse nosso propósito, com essa nossa visão, com esse nosso modelo de gestão, eles têm muito interesse em se unir conosco, querem entender melhor, passar por um período de maturação, trocando visitas para ver se isso acontece. Até mesmo patrocinadores, que hoje não estão no Brasil estão mostrando interesse no projeto de longo prazo, sabendo que daqui dois anos não vai ter um cara novo, uma diretoria nova, que não vai querer renegociar contrato, isso permite que eles tenham uma relação muito mais sustentável, que vai interessar para entrar no nosso mercado. A própria CBF já nos procurou tentando entender melhor o nosso negócio, tem gostado do que tem visto, e nesse curtíssimo tempo que nós estamos por aqui, porque no ano passado foi para apagar os principais focos de incêndio, e neste ano é que efetivamente começamos a trabalhar. A Conmebol também pensa que isso poderia ser implantado em pelo menos um clube de cada país membro da Confederação para que essa ideia pudesse ser desenvolvida. Eles questionaram a questão da tributação mais alta, o que é verdade, mas seria interessante, mesmo que temporariamente, uma tributação diferenciada e atrativa para aqueles clubes que venham a se interessar por esse modelo e profissionalizar sua gestão.

O que já conseguiu colocar em prática no clube?
Tudo o que vem sido feito no Figueirense vem sido feito na transparência, com auditorias, todos os funcionários sabem a realidade financeira do clube. Um trabalho muito pé no chão, definindo prioridades, vendo o que consegue renegociar para fazer pagamentos dentro da realidade do clube hoje. Fornecedores, atletas e ex atletas vem compreendendo isso e veem sendo parceiros do clube acompanhando esse movimento. Jogador me liga e fala “do ano passado eu tenho dois pagamentos a receber". Eu falo que não tenho recurso e que só terei a partir de maio, por exemplo, com um pagamento em quatro vezes. E eles tem acreditado na gente e esperam para que a gente se organize. Isso é aberto para todo mundo que está aqui dentro. A própria empresa questiona se estamos com problema A ou B e nós falamos o que aconteceu ou não aconteceu. Isso vem dando credibilidade para a gente e dá tranquilidade para quem trabalha com a gente. Segundo, quando não há interferência dentro da parte do futebol, quem está no futebol trabalha como todos os clubes deveriam trabalhar. Sem interferência política ou de interessados dentro do futebol. Ninguém consegue empurrar jogador, definir escalação. Desde a base isso.

E na questão esportiva, quais são as mudanças?
Nós fizemos uma limpa aqui. Tiramos jogadores que não tinham condições e só estavam aqui vinculados a pessoas que estavam no clube. A partir desse momento o atleta sabe que vai competir de igual pra igual sem interferência política de alguém que é do conselho e tem um familiar que tem que jogar. Até em clube grande tem isso. A gente limpou isso na nossa chegada. Então o jogador fica animado porque tem condições de jogar com 11 vagas para competir e não apenas seis. O treinador e preparador que não trabalhavam dentro da licitude, ou seja, que recebiam de alguém para escalar e nós descobrimos, também não ficam aqui. Vem trabalhar gente que quer trabalhar direito, desenvolver e ganhar com um time saudável. E isso não se limita à base. O Milton Cruz hoje jamais tem um interferência nossa, sequer da diretoria de futebol, dizendo que tem que colocar para jogar, tirar de lá ou tomar uma atitude. Aquele espaço é dele. Ele vai definir quem joga, quando joga e como joga. Isso dá uma tranquilidade. O clima aqui dentro é muito saudável. Os atletas estão felizes e é nítido. Quem está emprestado não quer voltar. Isso vem acontecendo e acredito que, um pouco do reflexo em campo é essa política empregada que seria uma filosofia de funcionamento do verdadeiro futebol. Nessa proporção isso vem sendo saudável para o resultado em campo também.

Logo depois do estadual tem a disputa da série B e o Figueirense, pela tradição, entra como favorito ao acesso. Qual é a meta de vocês? Há uma expectativa?
A meta é o acesso. De preferência sendo campeão. Aliás, independente dos demais campeonatos que a gente tinha esse ano, a meta do Figueirense em 2018 é subir para a série A. O time que foi montado e disputou o catarinense já foi um time montado focado para a série B. Não montei um time para disputar o Catarinense para, ao final, fazer mil contratações, como muitos fazem. Nosso time que jogou o Catarinense estava praticamente formado no final de dezembro. Definimos as contratações todas em janeiro. Na primeira semana de janeiro eu tinha 90% do elenco já em campo treinando. Serviu como um balão de ensaio. Fizemos o modelo de rotatividade dos jogadores, que até foi criticado por alguns da imprensa, mas pararam quando viram que estava funcionando. Nós rodamos os jogadores e funcionou muito bem. Esse elenco é um elenco que pode somar mais duas ou três peças, no máximo. Acreditamos que esse time esteja muito bem preparado para disputar o acesso à série A.

Você já vê um retorno da torcida em relação a gestão de vocês?
É muito diferente. A média de público do ano passado foi de 1.500 pessoas. A gente está com uma média de 6 mil no Catarinense. A torcida do Figueirense é uma torcida que sempre compareceu ao estádio. Diminuiu nos últimos anos por tudo o que vinha passando, mas, aparentemente, o retorno da torcida é verdadeiro. Vem crescendo essa presença e a expectativa é ter uma média de, pelo menos, 10 mil pessoas por partida para esse ano. Ano que vem queremos melhorar ainda mais. Nosso programa de sócio-torcedor deu um pulo muito grande também. Quando entramos eram 6.800 sócios e agora passamos de 8.500. O número cresceu muito e é uma boa fonte de receita do clube. Isso é um reflexo do extracampo. Estamos vendo uma série de melhorias.