Wallace Antonio

Wallace Antonio é recordista das Américas no arremesso de peso (Foto: Reprodução/Instagram)

LANCE!
13/04/2016
13:48
Rio de Janeiro

Wallace Antonio precisou de apenas um ano de carreira para se tornar o melhor do Brasil na categoria S55 do arremesso de peso. Um ciclo olímpico depois, este carioca, de 31 anos, sonha mesmo é com o ouro nos Jogos Paralímpicos Rio 2016, em setembro. Um desafio e tanto, mas que não assusta o atleta da Equipe Furnas, acostumado a superar as dificuldades que a vida lhe apresentou:

- Eu me vejo sendo campeão paralímpico. Estou treinando muito para isso.

A vaga ainda precisa ser conquistada. Serão três chances entre maio e julho. Os 45 centímetros que ainda faltam parecem muito. Mas não para quem teve uma ascensão meteórica na carreira e bateu marca atrás de marca, como já se acostumou Wallace.

Em 2012, a convite de um amigo, ele conheceu o Centro de Educação Física e Desportos da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, em Sulacap, onde funciona o projeto Renascer, Servir e Proteger com o objetivo de melhorar a qualidade de vida de policiais militares, civis, bombeiros, além de outras pessoas com algum tipo de deficiência, por meio de atividades paralímpicas. Wallace já havia passado pela Associação de Apoio às Pessoas com Deficiência da Zona Oeste, em Bangu, onde foi apresentado ao basquete e ao handebol, ambos na modalidade paralímpica. Mas foi mesmo no atletismo que ele se achou e mudou completamente o estilo de vida.

- Eu era sedentário. Cheguei a pesar 120kg. Estava depressivo. Foi aí que minha mãe (Cassia) me incentivou a fazer alguma coisa. Comecei a fazer esporte para sair de casa. Não esperava ser atleta. O esporte mudou completamente minha vida. Hoje, sou mais feliz com minha cadeira do que quando andava – afirma o atleta.

O amor pelo atletismo foi à primeira vista. Levado pelo também atleta Jonas Licurgo (sargento reformado da Polícia Militar do Rio de Janeiro, que compete no lançamento de dardo e de disco paralímpico), em 2012, Wallace conheceu a técnica Jurema Henrique, que logo no primeiro dia de treino viu potencial nele, apesar da primeira impressão não muito promissora.

- Minha técnica costuma dizer que no primeiro lançamento eu quase acertei o próprio pé. Foram muitos treinos até a primeira competição, quando fiz 8,80m e obtive o índice para o Campeonato Brasileiro. Logo na primeira etapa, fiz 9,15. Na segunda, consegui 9,59. E na terceira, em novembro de 2013, atingi 9,68, batendo o recorde brasileiro em um centímetro.

Em 2014, a marca de Wallace Antonio no arremesso de peso passou para 10,24. No ano seguinte, ele bateu o próprio recorde brasileiro mais três vezes até se tornar o melhor das Américas, com 11,05m, o que o deixa como o sexto melhor do mundo. A vaga na Paralimpíada, próxima e mais importante meta a ser conquistada por ele, pode ser obtida no mês que vem. A categoria do atleta é a S55 (vai de S51 a S57, da mais branda à mais severa deficiência).

- Em maio tem evento-teste. Serão sete países competindo no Rio. Espero fazer 11,50m, marca que já me deixaria como segundo do mundo e garantido na Paralimpíada. Estipularam critérios que são classificação internacional, que já tenho, participar de evento internacional, que será este, e só vai faltar estar entre os três melhores do mundo. Treino para garantir vaga já no evento-teste. Quanto mais próximo dos Jogos, mais nervoso vou ficar – disse Wallace.

Se a vaga não for obtida na primeira chance, sobrarão outras duas: em junho, na primeira fase do Campeonato Brasileiro, e em julho, na segunda. Até lá, a rotina de treinos será intensa. Sempre de segunda a sexta-feira, com três dias de prática e dois na academia. O simples fato de a Paralimpíada ser na cidade onde nasceu já motiva Wallace Antonio:

- A competição vai ser no quintal da minha casa, pessoas que gostam de mim, que confiaram em mim e que me ajudaram vão estar lá. Nada melhor do que o ouro. Quando vai ter outra aqui no Rio?

O desafio é grande, mas não assusta quem já superou tantos obstáculos. Em 2007, Wallace trabalhava como mecânico numa empresa de ônibus quando sofreu um acidente de trabalho. Durante um reparo, um macaco hidráulico se rompeu quando ele estava embaixo de um veículo. Antes de completar 22 anos, ele estava paraplégico. Vieram a depressão, as feridas, a separação da mulher, com quem tinha o filho David Lucas, então com seis meses, o sedentarismo, a obesidade... E, claro, as dificuldades que uma pessoa com deficiência enfrenta no Brasil.

- Graças a Deus que encontrei pessoas que me ajudaram, instituições que me deram uma nova perspectiva de vida, empresas, como Furnas, que me apoiaram quando eu não era nada no esporte. Em Furnas, sou tratado não como atleta, mas como amigo. Espero que o fato de o Brasil ser uma potência paralímpica incentive outras empresas a apoiarem os atletas - pede o atleta.

Wallace Antonio termina fazendo um apelo às autoridades em nome das pessoas com deficiência física.

- Nada é feito para facilitar a vida do deficiente. Se não se arriscar, o deficiente não tem vez. Os políticos não pensam em ajudar. Eles deveriam botar a mão na consciência e dar mais acessibilidade a essas pessoas. O ser humano precisa ter mais amor.