Bruno Cassucci
29/09/2016
07:25
São Paulo (SP)

A construção da suntuosa Arena em Itaquera, ao custo de mais de R$ 1,2 bilhão, realizou um sonho centenário do Corinthians e elevou a auto estima do torcedor alvinegro. Também criou uma força a mais para o clube, que ostenta aproveitamento excelente em sua casa, e promete render receitas milionárias no futuro, após a obra ser quitada. Porém, o estádio tem feito o Timão conviver com uma situação mais do que desagradável, que vai na contramão de suas tradições e prejudica desempenhos individuais e coletivos. Trata-se do comportamento de algumas pessoas  que agem como fiéis clientes, não torcedores.

O que se viu na última quarta-feira, durante e após a vitória do Corinthians sobre o Cruzeiro, foi espantoso. O primeiro ato se deu na metade do segundo tempo, quando a equipe vencia por 2 a 0. Rodriguinho sentiu lesão, e Fabio Carille chamou Willians do banco de reservas. Imediatamente, um grupo de torcedores (que não era pequeno) no setor Oeste, atrás do banco de reservas, levantou-se e passou a xingar o volante e o treinador. Os mesmos rebeldes voltariam a protagonizar cena patética ao final do jogo, quando, mesmo após triunfo do Timão por 2 a 1, hostilizaram Carille e aplaudiram o treinador adversário, Mano Menezes.

Esta lamentável postura é inaceitável em qualquer torcida, mas fica ainda mais repugnante vindo daquela que é chamada de Fiel e, com méritos, elogiada por seu apoio incondicional ao time. Quem age assim é cliente, que entende que tem direito de protestar a cada decisão ou atitude que lhe desagrada. Futebol é para se torcer, não consumir. Talvez aqueles que pagam fortunas em cadeiras cativas e frequentam o espaço repleto de mármore e televisores no banheiro em Itaquera não tenham recebido o "tutorial" da arquibancada.

Me desagradam o excesso de selfies, as camisas de cores alternativas e até a festa patrocinada, com faixas e outros adereços dados por patrocinadores. Mas tudo isso faz parte e não afeta no resultado. Contudo, atitudes como a da última quarta vão além, jogam contra.

Para piorar, os fiéis clientes acabam tirando os holofotes dos verdadeiros torcedores. Contra o Cruzeiro, o Timão não conseguiu levar bom público, mas os quase 19 mil presentes cantaram alto e fizeram bela festa. Pena que nem todos agiram assim.

Nada justifica. Muito menos o argumento de que o Corinthians vem em má fase. Em maio, Tite, um dos maiores ídolos da história do clube, disse estar espantado com vaias. Meses depois, foi Cristóvão Borges quem se surpreendeu com a postura dos torcedores do setor Oeste. Agora, constrangido, Carille afirma que espera mais apoio para os próximos jogos. Quem será o próximo fritado?

Em 106 anos de história, muitas vezes a torcida corintiana empurrou bolas para dentro com apoio, salvou gols no grito e desestabilizou adversários fazendo a arquibancada tremer. Para saber onde se quer chegar é preciso se lembrar de onde veio. O Corinthians tem um problema a resolver.