Guilherme Amaro
23/05/2018
15:07
São Paulo (SP)

Após aceitar a proposta do Al Wehda, da Arábia Saudita, e deixar o Corinthians, o técnico Fábio Carille não descartou comandar algum rival do Timão no futuro. Ele assinou contrato por dois anos com o clube saudita.

- Eu sou profissional, estou indo com a cabeça de ficar lá anos. A partir do momento que sou contratado por alguém que pague, não penso em voltar. Senão já chego derrotado. Estou para fazer história. Um dia voltando, estarei aberto a tudo. Não tenho que ficar dando preferência a esse ou aquele. Quem sabe em uma volta minha lá na frente o Corinthians esteja bem... Sei lá, enfim. Sou profissional e tenho que estar aberto a todos - afirmou Carille, em sua entrevista coletiva de despedida realizada em um hotel em São Paulo, na tarde desta quarta-feira.

Carille explicou por que não foi ao CT Joaquim Grava para se despedir dos jogadores, diretoria e demais funcionários, além de não comandar o Corinthians pelo menos nesta quinta-feira, contra o Millionarios, ou até a parada da Copa do Mundo. O treinador também disse que o Timão não poderia ter feito algo para segurá-lo.

- Desde o início do Al Hilal, que eu sabia que ia ser uma coisa muito grande, eu não ia usar isso para ter aumento no Corinthians. Ou iria ou ficaria no Corinthians pelo valor que estava. Desde o momento eu não quis falar. Ou vou ou não vou. Foi uma opção minha. Estou ciente disso. A decisão de fazer a coletiva aqui é porque sou muito emotivo. Não ia me sentir bem na véspera de jogo, quero fazer isso na sexta. Não sei se vou fazer, mas quero ir lá e dar um abraço em cada um. Não tem nada estremecido, foi uma opção minha. Se pensou em fazer um jogo de despedida, mas também não. Não ia conseguir dar uma preleção, acho que o vestiário ia ficar negativo por tudo que vivemos. Foi uma opção minha - disse Carille, antes de ser questioando se faria algo para os torcedores.

- Tudo que eu falei com a diretoria foi muito tranquilo. Não quis pela importância do jogo (contra o Millonarios, pela Libertadores). Lembro que quando o (lateral-esquerdo) Fábio Santos se despediu para ir para o México o ambiente ficou ruim, com as pessoas chorando, porque ele era muito querido. Pensei em tudo isso. Acho que pode trazer o vestiário para baixo. Não pensei em relação à torcida. Vou falar com a diretoria e talvez pensar em alguma coisa. Sei que tem muitas pessoas chateadas e outras que me entendem, faz parte, mas estou muito em paz. Apesar de ter sido rápido, eu pensei muito - acrescentou.


O treinador também comentou sobre a relação com o presidente Andrés Sanchez e elogiou Osmar Loss, que assumirá o comando da equipe. Confira abaixo:

Qual foi o pior momento no Corinthians?
No futebol para mim nunca tem pior momento. Tem momentos de aprendizado. Vocês não me viram lamentar de jogador, reclamei muito pouco de arbitragem... É meu jeito de ser. Um ano e meio de muito aprendizado. Não vi piores momentos. Não ganhar? Derrota faz parte do jogo. Por que aconteceu? O que tenho que fazer? É uma busca constante, por isso passava de oito a dez horas no CT. É um trabalho árduo. Momento ruim é tomar uma decisão como eu tomei ontem. De resultado e de trabalho não tenho o que reclamar

E o melhor?
Tudo é importante, nossa primeira vitória lá na Florida Cup sobre o Vasco por 4 a 1... Todos momentos foram maravilhosos e saio muito feliz. Não só pelo período como técnico, mas também nesses nove anos como auxiliar.

Como vê a decisão de colocar Loss como técnico?
Sou muito grato ao Loss, que me ajudou muito. Ele tem experiência grande de 15 anos de trabalho no Inter, é um cara muito capacitado, que teve tempo. Claro que não o mesmo tempo que eu, com oito anos, mas com um ano e meio dá para entender o que é o Corinthians. Desejo tudo de bom. Minha gratidão a todos eles por esse convívio.

Como é sua relação com Andrés?
Minha relação com o Andrés é maravilhosa, não tenho nada para falar dele. Nunca me senti ameaçado depois da vitória sobre o Palmeiras no 1 a 0 com gol de Jô (na fase de grupos do Paulistão de 2017). Até ali tinha dúvidas, até em relação a mim mesmo.

Teve alguma preocupação para acertar com o Al Wehda?
Desde quarta-feira tive preocupação de falar com os profissionais que trabalharam lá recentemente. Fizemos um curso da CBF que tinha muitos profissionais que trabalharam lá, e temos grupo de WhatsApp que nos falamos sempre. Minha busca foi isso. Porque sei que o país se abriu bastante, não é o que era há fez anos. Está tendo mais liberdade. Essa foi minha preocupação. Quando chegou um contrato, tudo fortaleceu ainda mais por estarem acreditando no meu trabalho.

Como foi essa decisão?
Pensei em tudo mesmo. Sei que não é fácil pedir para sair do Corinthians. Ainda mais com essa história que foi construída, por tudo que eu vivi... Não é fácil. Ontem foi um dia difícil. Manda documento, não vem documento e as horas vão passando. Se vai aceitar, quero comunicar o Corinthians. À tarde eles não trabalham por conta da cultura. Foi um dia muito difícil, pensei em tudo, mas estou com muita paz no coração da minha escolha. Sei que o torcedor é paixão, eu entendo, mas trabalhei muito no Corinthians e conquistamos bastante. Teria espaço para conquistar mais, mas coloquei na minha cabeça sobre um novo desafio, de acreditarem no meu trabalho.

Como foi o aviso ao Corinthians e a decisão de não comandar mais algum jogo?
Logo que chegou o documento ontem, a primeira pessoa que eu liguei foi para o Duílio (Monteiro Alves, diretor de futebol) e descartei qualquer possibilidade de dirigir mais um jogo. Se a gente não estivesse classificado para a Libertadores, não sei se tomaria essa decisão. Como está classificado na Libertadores e na Copa do Brasil. Lembro que o Tite anunciou que não ia continuar, os dias foram tristes no CT. Acho que ia ser mais negativo do que deixar o caminho livre. Eu mesmo ia ter que ir para e preleção... É difícil. Não está vindo um cara de fora, é um cara de dentro do clube, então foi uma ideia de não dirigir um último jogo, de não fazer a coletiva lá hoje ou amanhã, e talvez ir sexta. Tudo partiu de mim.