Bruno Cassucci
03/10/2016
06:00
São Paulo (SP)

Com dificuldades para pagar, o Corinthians rediscute o financiamento da Arena com a Caixa Econômica Federal – a negociação também envolve a construtora Odebrecht e precisa da chancela do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Além de pedir maior prazo para quitar o empréstimo para a construção do estádio, o clube discute mudar o valor das parcelas.

Em 2015, o fundo que administra a Arena (formado por Corinthians, Odebrecht e Caixa) teria que pagar R$ 119 milhões pelo financiamento. O valor arrecadado com bilheteria de jogos, venda de camarotes e outras receitas do estádio foi de R$ 90 milhões. A meta para este ano era de aproximadamente R$ 125 milhões e chegaria a quase R$ 210 milhões em 2018.

– A Caixa concordou (em discutir) porque falamos: “Temos de resolver, não estamos conseguindo juntar todas as peças.” A gente não discute um refinanciamento, mas o projeto financeiro. O contrato foi desenvolvido em uma realidade econômica do país, que hoje é outra – explicou o diretor financeiro do Timão, Emerson Piovezan, ao LANCE!.

"A gente não discute um refinanciamento, mas o projeto financeiro. O contrato foi desenvolvido em uma realidade econômica do país, que hoje é outra"

O Corinthians tem até 2028 para quitar o financiamento. Contudo, por um acordo com a Caixa, desde maio as parcelas não são pagas. O banco estatal “congelou” a cobrança por seis meses para que um novo modelo de pagamento seja discutido. Mas a diretoria alvinegra pede, pelo menos, mais 17 meses de prazo. Isso porque, segundo as regras do BNDES, os financiamentos do programa “ProCopa” (ao qual o Timão aderiu) poderiam ter até 36 meses de carência. A arena de Itaquera, porém, contou com somente 19 meses.

Ainda não está definido porém, se os 17 meses extras descontarão os seis já concedidos.

O fato de não ter vendido o naming rights (direito de exploração do nome) da Arena é um dos aspectos determinantes para as dificuldades do clube. “Quente” no começo do ano, a negociação regrediu muito. Um fundo de investimento que tinha negociação avançada para a compra até há alguns meses não apresentou garantias financeiras necessárias e praticamente desistiu do acordo. O Timão tem conversas com outros interessados, mas em estágio inicial.

- ARENA DEVE FICAR MAIS CARA

A obra da Arena Corinthians custou R$ 985 milhões. Com juros e gasto extra para retirar a arquibancada provisória, o número saltou para R$ 1,2 bilhão. Segundo a “Folha de S. Paulo”, devido a custos financeiros, o preço estimado da Arena hoje é de R$ 1,64 bilhão.

No entanto, com esta nova negociação, o estádio em Itaquera custará ainda mais caro. Isso porque, com maior tempo de pagamento, o clube também pagará mais juros.

"Não existe almoço de graça, é claro que se alonga o prazo, tem mais juros. Mas é melhor pagar do que não ter"

– Não existe almoço de graça, é claro que se alonga o prazo, tem mais juros. Mas é melhor pagar do que não ter. Como vai fazer? Entregar a chave para os caras? Não é por aí – comentou Emerson Piovezan.

– Qualquer um que vai negociar dívida é assim, se atrasa um cartão de crédito é assim. Não tem jeito, faz parte do sistema. Eles não vão dar de graça, nem nós estamos pedindo isso, só queremos que o modelo desenvolvido seja adequado à realidade atual – completou o diretor financeiro do Corinthians.

- CLUBE NÃO TEME PERDER A GESTÃO

Por contrato, se não atingir as metas de pagamento, o Corinthians perde a operação da Arena Corinthians para o fundo representado pela BRL Trust, empresa do mercado financeiro indicada pela Odebrecht para administrar o estádio, ao fim de 2017. No entanto, dirigentes do Timão dizem não temer isso, já que “ninguém sabe gerir melhor o estádio” que o próprio Timão.

Além disso, a Odebrecht ofereceu garantias para o pagamento do financiamento e seria acionada antes mesmo que o clube. No entanto, as partes não cogitam isso e garantem um acordo amigável.

- BATE-BOLA COM EMERSON PIOVEZAN, DIRETOR FINANCEIRO DO TIMÃO:

Por que pedem maior carência?
Todas as Arenas tiveram 36 meses. O Corinthians teve 19. É algo justo.

A falta de experiência na gestão de uma arena prejudicou na elaboração do contrato de pagamento?

"O estádio foi erguido com o Brasil pujante e hoje o Brasil está em crise. Empresas que seriam interessadas em comprar camarotes têm isso como última prioridade"

Totalmente. Não tínhamos nada, ninguém tinha. Só tínhamos base no Pacaembu, que possuía 38 mil lugares e em jogo importante tinha 60 mil esperando do lado de fora. Mas afora tudo isso, o que aconteceu? O estádio foi erguido com o Brasil pujante e hoje o Brasil está em crise. Empresas que seriam interessadas em comprar camarotes têm isso como última prioridade. Mas acredito que vai melhorar, hoje já há mais procura....

A troca de governo federal atrasou as negociações com a Caixa?
Claro, começamos a discutir em setembro de 2015, foi passando esse período de tumulto político, troca de governo... Discutíamos com um grupo de pessoas e, de repente, mudou tudo.

Essa negociação conta com a participação da Odebrecht?

A Odebrecht participa, nesse modelo nós (Corinthians) somos responsáveis pelo pagamento das parcelas e o fiador é a Odebrecht. Mas a gente não quer entrar nesse tipo de discussão, queremos pagar. O Corinthians tem compromisso de honrar essa dívida, tanto é que tem as garantias dadas pelo clube. Mas antes disso tem as garantias da Odebrecht por contrato. A gente vai buscar receita para deixar no fundo e pagar as parcelas do financiamento. 

O clube teme perder a gestão do estádio?
Todos entendem que é melhor a gestão continuar com o Corinthians, a Odebrecht é construtora, não especialista em gestão de arenas.

Mas poderia terceirizar.
Terceirizar é caro, pergunta para a W. Torre como foi a terceirização (da gestão do Allianz Parque, estádio do Palmeiras). Hoje temos departamento comercial, financeiro, estamos procurando gente no mercado... É o mais profissional possível.