Marcio Porto
14/06/2018
06:31
Enviado especial a Sochi (RUS)

Willian poderia ter acabado para a Seleção Brasileira em outubro de 2016, quando sua mãe Maria José, a dona Zezé, morreu vítima de um câncer. O problema pessoal o abalou profundamente, o fez perder mais de quatro quilos e o bom futebol que o levava a ser convocado com frequência. Willian sentiu o golpe. Mas com a mesma garra e determinação que espantava seus amigos na infância, ele deu a volta por cima e chega para a disputa de sua segunda Copa do Mundo como um dos 23 "Homens de Gelo" de Tite. Mais: como titular e com a confiança total do treinador. O atacante é o décimo primeiro personagem da série do LANCE! sobre o grupo que tentará o hexa na Rússia. Você vai entender que não existe distância entre um craque da Seleção e um motorista de Uber, ainda mais quando se tem o coração solidário nos momentos mais difíceis. 

O AMIGO MOTORISTA


Willian começou no futebol na escolinha de Marcelinho Carioca, um dos maiores ídolos da história do Corinthians. Um dia, disputou um amistoso contra o time de coração da família e arrebentou. Foi chamado para um período de testes e não saiu mais. Na mesma avaliação, foram aprovados ele e o zagueiro Leandro Novaes, amigo que simbolizaria a trajetória vitoriosa do atacante da Seleção Brasileira no futebol.

Eles jogaram juntos de 1998, quando entraram na escolinha, até 2006, antes de Willian ser promovido ao profissional do Corinthians. Leandro ficou, cada um seguiu sua caminhada, mas de certa forma as histórias nunca pararam de se cruzar. A cada gol do atacante do Chelsea (ING) na Premier League ou pela Seleção Brasileira, o coração de Leandro bate orgulhoso passando a sensação de que fez parte daquilo, pelo menos um pouquinho. 

- Meu pai pegou ele no colo, toda minha infância, meus sonhos, foram com ele. Assisto todos os jogos e vibro com cada gol. É como se um pedacinho meu estivesse lá - afirma Leandro Novaes.

O futebol não foi tão generoso com Leandro como foi com Willian, ou Leandro não foi tão generoso com o futebol quanto Willian foi. O ex-zagueiro e volante até atingiu certo sucesso, sendo capitão do Corinthians na Copa São Paulo de Futebol Júnior em 2007, ano em que Willian foi vendido para o Shakhtar Donetsk (UCR). Mas, como tantos outros, ficou pelo caminho. Hoje, é motorista de Uber para garantir o sustento da família. Tem um filho de nove meses, o Luan. Seu depoimento ajuda a entender por que o atacante hoje é um dos homens de Tite.

- Eu era mais encrenqueiro, já o Willian é difícil de tirar ele do sério. Não lembro de ter visto isso. Eu sempre fui temperamental, discuti com treinador, diretor de clube, presidente. E o Willian sempre foi muito aplicado, nunca se lesionava. Quando menino, ele já tinha a musculatura totalmente formada - afirma Leandro Novaes. 

Leandro sempre teve a certeza de que o amigo viraria. Só não de que ele jamais o abandonaria mesmo depois da fama.


O MESMO DRAMA E O BOLO DA DONA ZEZÉ

A relação da dupla foi muito além dos campos. Estavam sempre juntos, mesmo nos momentos de folga. Fins de semana deliciosos no sítio do amigo Netto Madeira, também companheiro de Corinthians na base. Brincavam, bagunçavam, eram crianças felizes. Tinham o mesmo sonho. Mas jeitos diferentes. 

- O Willian desde pequeno tinha a questão de ser focado, fazer acontecer. É o que mais mostra que ele chegou por merecimento, ele fez o que devia ser feito. Todos devem fazer, mas não tem o saco, a paciência. A vida dele era ser jogador de futebol. Nunca saiu, viajou como a gente viajava para fora, nunca teve vida social como qualquer outra pessoa de 15 anos. A vida dele era ser jogador - lembra Netto, que deixou o Corinthians em 2003 e hoje trabalha na área comercial.

A relação se estendia também à casa de Willian. O pai Severino estava sempre nos treinos. A mãe Zezé acolhia os meninos. Leandro lembra com saudosismo da iguaria preparada pela Zezé, conhecida como bolo farofa. 

Willian com a mãe Zezé na infância
Willian com a mãe Zezé na infância


Quando Zezé morreu em 2016, Leandro sentiu o golpe junto. Foi ao enterro dar força para o amigo em um dos poucos momentos juntos nos últimos anos, natural pela vida corrida do astro da Seleção. Na verdade, Leandro foi também retribuir a forçada dada pelo amigo na mesma situação. Por ironia do destino, quatro anos antes da morte da mãe de Willian, ele perdeu a mãe, também vítima de câncer. Foi quando recebeu a maior demonstração de carinho dada pelo amigo jogador.

- Em 2012, eu parei de jogar com uma lesão no púbis e porque minha mãe adoeceu, com câncer. Ele estava fora, ajudou no tratamento. Na época, eu precisava pagar um exame, de 4 mil reais, a gente estava com dificuldade, e ele foi na minha casa, me chamou no terraço, reclamou que eu não falei nada. No mesmo instante, ele fez um cheque. Eu não precisei utilizar, porque minha mãe não conseguiu resistir - lembra o motorista.

A mãe de Leandro não resistiu, ele devolveu o dinheiro a Willian, mas o gesto ficou eternizado.

SOLIDÁRIO, MAS NEM TANTO, WILLIAN!

O jeito sereno de Willian é exaltado por seus companheiros e comandantes, seja no Chelsea, seja na Seleção. É o típico rapaz bonzinho, adorado por todos. Gentil, solidário, e muitas vezes essas características se repetem em campo. Mas isso preocupa Tite. Após o amistoso contra a Áustria, o último antes da estreia do Brasil na Copa, o treinador revelou preocupação com o caráter generoso demais de Willian em campo. O atacante teve uma grande chance de finalizar no segundo tempo da partida, mas preferiu fazer o cruzamento para encontrar Gabriel Jesus e Neymar. Não foi gol. Não fez falta na vitória por 3 a 0, mas mexeu com o treinador.


-Os jogadores abrem mão do gol. Não é uma relação de profissionalismo, é uma relação de amizade. Mas se deixar de fazer o gol vai tomar uma dura - disse Tite, sem citar Willian, mas com recado direcionado.

Na Rússia, Leandro e os outros amigos estarão na torcida do solidário Willian. Mas que esse aspecto não o impeça de ser decisivo.