Luiz Fernando Gomes
06/11/2016
08:20
São Paulo (SP) 

A final da Copa do Brasil representa para Marcelo Oliveira e Renato Gaúcho mais do que a simples disputa de um título. Ambos vão colocar em jogo uma parte importante do seu passado. Como este LANCE! mostrou, em matéria publicada na sexta-feira, os dois treinadores finalistas construíram uma trajetória vitoriosa, foram ídolos e heróis nos clubes onde se lançaram como jogadores, conquistaram títulos e agora os comandam à beira do campo.

Renato Portallupi, como o Gaúcho é chamado lá pelo Sul, estreou com a camisa tricolor em 1982, foi campeão da Libertadores e um ano depois se tornaria o protagonista da maior conquista do Grêmio em todos os tempos, marcando os dois gols que garantiram o título mundial interclubes, na inesquecível vitória sobre o Hamburgo da Alemanha. Já Marcelo Oliveira começou a carreira no Galo, como meia de ligação, e ganhou quatro títulos mineiros entre 1976 e 1983. Também virou técnico dirigindo as categorias de base do Alvinegro mineiro.

Num país em que técnico é um produto descartável – dos 20 clubes do Brasileirão apenas o Santos ainda mantém o mesmo treinador, Dorival Júnior, desde o início da temporada - não é uma decisão (ou uma missão) das mais fáceis dirigir um time com o qual se tem um ligação histórica, movida pela paixão e sustentada pela idolatria de milhões de torcedores.

A questão é uma só: até que ponto o sucesso do passado resiste a fracassos no presente?

Falcão, no Internacional, é o caso mais recente em que o ontem nem sempre se impõe sobre o hoje. Quem poderia imaginar que, um dia, o homem que levou o time a momentos de glória dentro do campo, com o tricampeonato brasileiro em 1975, 1976 e 1979, poderia ser chamado de burro por uma inflamada massa colorada, sempre acostumada a gritar seu nome e a reverenciá-lo no Beira-Rio? Este ano, foi uma passagem-relâmpago – duas experiências anteriores também foram curtas e nada mais do que razoáveis. Contratado para reerguer o time, brigando contra o rebaixamento, o mandato de Falcão durou apenas 27 dias, cinco partidas, com dois empates e três derrotas. E sucumbiu.

Vale dizer que mesmo em relações mais longas e bem-sucedidas, o desgaste acontece em algum momento. Foi o caso de Roger Machado, que como zagueiro e lateral esquerdo conquistou três Copas do Brasil, uma Libertadores e um Brasileirão nos anos 90 e agora, técnico, comandou o Grêmio por um ano e quatro meses, de maio de 2015 a setembro deste ano. Depois de uma lua de mel com a torcida, pressionado por maus resultados e as vaias que ouvia das arquibancadas, acabou se demitindo depois de uma derrota por 3 a 0 para a Ponte Preta.

Verdade que essa não é uma exclusividade brasileira. Seedorf perdeu boa parte de seu prestígio com a torcida do Milan quando assumiu o comando do time – depois da passagem pelo Botafogo – num reinado que durou apenas 22 jogos com aproveitamento de somente 50% e a oitava posição na Liga italiana. Números bem diferentes dos que o tornaram um dos maiores ídolos da história do clube numa década de ouro, com 62 gols marcados em 432 jogos com a camisa rubro-negra milanista. .

Mas, voltando à decisão da Copa do Brasil, Renato Gaúcho leva a “vantagem” de já ser experiente nessa situação. Imortalizado no Fluminense pelo gol de barriga que roubou o título do Flamengo no Carioca de 1995, voltou ao clube quatro vezes como técnico, em períodos vitoriosos e outros nem tanto assim. Essa, também, não é a primeira vez que dirige o Grêmio já tendo comandado o tricolor gaúcho em 2010-2011 e em 2013. Sem grande estardalhaço.

Se a paciência do torcedor com os ídolos do passado pode até ser maior, a idolatria está longe de ser um salvo-conduto, não garante a imunidade. Às vezes, até mais do que para um técnico forasteiro, não basta sequer ter bons resultados. O que a torcida espera são títulos – com a mesma intensidade dos que foram conquistados dentro do campo. Renato e Marcelo Oliveira vão escrever, dia 30, mais uma página de sua história no Grêmio e no Atlético. Uma página que pode virar um capítulo inteiro. Ou acabar reduzida a uma nota de rodapé.