José Luiz Portella
04/12/2016
12:00
São Paulo (SP) 

No primeiro momento, o que fazemos, é não acreditar. Querer negar. Imaginar um desmentido, uma reversão. Assim amanhecemos na terça, olhando para o noticiário. Aos poucos, vem a consternação, a tristeza dolorosa e colossal, a tomar conta de tudo. E emerge a inefável sensação de impotência. A impotência humana, diante dos fatos.

Um famoso banqueiro italiano classificou a impotência como uma mistura de arrogância e mediocridade. A arrogância, de acharmos que podemos mais do que se pode; a mediocridade, de nossos limites reais.

A impotência é capítulo que o homem deseja não ler. Para isso ele recorre ao autoengano, que o faz falsamente poderoso. É exatamente o que constitui a tragédia, uma conjunção de acontecimentos, levando à desgraça, sem que as pessoas tenham necessariamente culpa, sem que os envolvidos possam deter o destino.

No momento da impotência, a reflexão é mais profunda, e apresentam-se a esperança e o desencanto. Por que toda esta solidariedade comovente não ocorre no cotidiano ainda que em menor escala? Por que a união na dor, ao se desvanecer no tempo, não dá luz a movimento forte de realizar em conjunto tarefas e atitudes que nos levem a vida mais digna a todos?

Depois da profusão de solidariedade, aos poucos, se impõem os velhos comportamentos, onde o homem é mais do que um competidor entre si, é um dominador ou predador. Voltamos a ser o “lobo de nós mesmos”, segundo Plauto, popularizado por Hobbes.

Mais do que opinar ou fazer, almejamos ter razão, e, além disso, queremos desqualificar os que nos antagonizam. Não basta ter ou vencer, precisamos nos sobrepor, oprimir, desfazer o outro. Os sentimentos mais agressivos expelem os conciliatórios, logo que nosso pequeno ego se sinta atacado. Precisamos lutar pela não discriminação, porque somos naturalmente discriminadores.
Lutar pela igualdade, porque nosso impulso é a distinção a favor de privilégios que achamos merecer.

Enganamo-nos o tempo todo. O mal faz parte de nós e ele não precisa de fatores externos para se manifestar, segundo Kolakowsky.

E, então, resta a esperança. Podemos mudar. Colocar nossa autoestima a serviço de uma grande causa. Diante da impotência, o que nos resta é fazer o melhor possível. A favor de um ideal. Rejeitar esse egocentrismo contemporâneo, agravado pelo feitiço do celular e redes sociais, a nos isentar de ver as pessoas nos olhos, e debater ideias rumo a objetivo grandioso.

A inevitabilidade da tragédia deveria nos fazer melhorar a nós mesmos, antes de impor aos outros nossas concepções.

Vamo, Vamo Chape! A sua força pode nos transformar.