José Luiz Portella
30/11/2016
12:00
São Paulo (SP) 

Antes da descoberta pelos europeus, por Pedro Álvares Cabral, o Brasil já tinha um nome dado pelos índios, que chegaram antes: PINDORAMA. Quer dizer: “Terra das Palmeiras”. Tem o significado do lugar livre de todos os males e era como os povos dos Andes e Pampas reconheciam o Brasil.

O Brasil é Terra das Palmeiras desde que nasceu. Este inextricável liame entre o clube e o país é a parte mais exuberante de sua trajetória. Palmeiras contempla mais do que a maravilhosa comunidade italiana.  Ele é um símbolo da construção do Brasil que se afirmou lutando contra os seus obstáculos. 

Em 1914, foi a inesquecível contribuição dos imigrantes italianos a forjare a pujança da capital dos paulistas, que até antes da chegada de italianos e japoneses, era vila pobre e acanhada. Palmeiras marcou também a consolidação da classe operária, enraizada nas chaminés das Indústrias Reunidas Matarazzo, até hoje lá, a indicarem a força do empreendedor que se tornou o italiano mais rico do mundo, feito no Brasil, e a altivez de uma classe trabalhadora com ideais libertários, que realizou em 1917, a primeira greve de peso em São Paulo.

No pós-guerra, Palmeiras foi ícone da resistência à perseguição aos imigrantes chamados de “italianinhos”, mesmo sendo parte fundamental da formação do Brasil, na economia e na cultura. Foi quando quiseram tirar-lhe o estádio. E, período, onde muitos descendentes de italianos tiveram suas nomeações a juízes e outros cargos relevantes não realizadas, postergadas, fruto da incompreensão. Resistiu-se.

Em 1950, o Brasil sucumbe, em dor, no palco do Maracanã, e reencontra seu pior complexo: a baixa autoestima, a descrença em si mesmo, a percepção de impotência. O complexo de vira-latas emerge nas falhas de Bigode e Barbosa, na ausência de forças para chegar ao empate, que lhe bastava.

Foi em 1951 que o Brasil do futebol se reergueu, com a conquista da Copa Rio, no mesmo gramado estigmatizado do Maracanã, em campeonato com potências de toda a Europa.  Palmeiras foi Brasil, outra vez. A inaugurar novo marco, a era do Brasil que acreditava em si. E, a partir de então, foi construindo uma história de crescimento que se tornou o maior do mundo, até 1980. 

Entre 60 e 80, Brasil foi a China da ocasião. Em 1965, foi a Seleção. Do Brasil. Vencendo o poderoso Uruguai. É o único clube que representou o País. Dos anos sessenta em diante ofereceu a todos as Academias.

A década perdida do Brasil na economia, em 1980, correspondeu ao sofrimento e fila. Todavia, o ressurgir de um país que venceu a inflação e voltou a crer em si mesmo foi recepcionado pelo bicampeonato nacional de 1993-94.

Muitos clubes contribuíram com o Brasil e fizeram das respectivas histórias momentos da nossa história. Cada um a seu modo. Mas poucos, quase nenhum, foram tão umbilicalmente ligados ao Brasil quanto o Palmeiras.

Respeita-se a todos, mas nos orgulhamos demais de ser a representação viva de uma Nação que ainda luta por encontrar sua verdadeira dimensão de crescimento, igualdade e justiça social. Como todos os outros clubes, Palmeiras faz parte da história do Brasil. De parte bem dignificante dessa história.

É Pindorama, Terra das Palmeiras, cujo mito é estar longe de todos os males. Um pedaço de esperança de um Brasil que deseja ser bonito.

Parabéns, a essa torcida espetacular!

A UM GRANDE PALMEIRENSE 

Homenagem a Luiz Gonzaga Belluzzo, o pai de Luiz G. de Mello Belluzzo, idealizador e principal artífice do estádio. Luiz Gonzaga pai trabalhou no primeiro Estatuto do Palmeiras, nos anos 40, quando o clube enfrentava a intolerância. Ele teve sua nomeação a Juiz, conquistada em concurso público, postergada, por ser filho de italianos. Foi perseverante. Um palmeirense discreto, um juiz sóbrio e Idealista.

Com a permissão de seu filho, que nos proporcionou o Allianz Parque, Luiz pai, o superou:  construiu este clube campeão com a simplicidade dos anônimos que erguem o País.