Meme de provocação

Em meme, Corinthians provocaram rivais Palmeiras e Santos (FOTO: Reprodução)

Luiz Fernando Gomes
19/11/2017
08:05
São Paulo (SP)

Houve um tempo – estou falando dos anos 70, salvo a falha de memória – que O Globo publicava às segundas-feiras, depois de um clássico do futebol carioca, um Diploma do Sofredor. Era o máximo recortar aquele pedaço de papel de jornal e levar para a escola para entregar para um amigo que torcia para o time derrotado na tarde de domingo. Melhor anda era ver como quem sofria a gozação recebia o diploma com saudável espírito esportivo.

O Diploma do Torcedor foi uma invenção de Otelo Caçador, jornalista e cartunista carioca, falecido em 2006, com 80 anos de idade. Rubro-negro fanático, ele é descrito assim no site Museu da Pelada,:

"Otelo Caçador da Silveira, filho do general Joaquim Cardoso da Silveira e de Ida Caçador da Silveira, assinou textos sarcásticos e bem-humorados, caricaturas e charges para o Jornal dos Sports, onde começou a carreira em 1947, para a antiga revista O Globo Sportivo e para O Globo, no qual permaneceu por mais de três décadas a frente da coluna “Penalty”, que despertava a ira de vascaínos, botafoguenses e tricolores. Na seção “Placar moral” (uma expressão criada por ele) , o Flamengo jamais perdeu clássicos contra os rivais. Um deles foi o inesquecível Botafogo e Flamengo, de 1972, que terminou 6 a 0 para o Fogão. No dia seguinte, Otelo não pensou duas vezes e aplicou no “Placar moral” um rotundo empate (6 a 6) que amenizava a vexatória goleada sofrida pelos rubro-negros."

Nos dias de hoje, Otelo seria um perseguido. E até o Diploma do Sofredor – que ainda é encontrado em sites na web – corre o risco de ser chamado de bullying. Vivemos os tempos da patrulha alheia, do politicamente correto, em que muitos só acham graça das próprias piadas, em que marchinhas centenárias de carnaval viram manifestações de preconceito, vê-se racismo e sexismo onde têm e onde não têm, confunde-se a provocação saudável com agressão.

O futebol não inventou a chatice, é o reflexo da sociedade em que se insere. Driblar não é mais um ato natural, mas quantas vezes um drible é discutido como se fosse uma humilhação ao adversário. As comemorações ousadas – das máscaras, do subir no alambrado, de tirar a camisa e exibir o que tem embaixo, dos gestos provocativos - agora são motivos de cartão amarelo. É como se o diretor de uma comédia impedisse os atores de soltar um caco, improvisar a cena a partir de uma deixa ou de uma manifestação do público. São amarras intoleráveis que sacrificam a arte. Nos palcos e na bola.

Mas há algo quebrando esse marasmo. E que precisa ser comemorado. Nos tempos de rede social, os memes estão trazendo de volta ao futebol a graça e a ironia perdidas. São sites, blogs como o Humor Esportivo (http://www.lance.com.br/humor-esportivo) deste LANCE! ou manifestações individuais de torcedores-internautas que trazem vida nova ao ato de assistir futebol, de torcer, de zoar e de se divertir. Há, sim, abusos, piadas fora de tom, mensagens além dos limites da boa convivência. Os próprios clubes, às vezes, têm perdido a mão partindo para o confronto, o menosprezo e a ofensa na tentativa de tripudiar do outro. Mas, convenhamos, nada diferente de outros tempos, dos papos de arquibancadas, do recreio na escola, das mesas de botequim. E, acima de tudo, nada que possa justificar que, em nome de evitar o excesso, a criatividade e a espontaneidade que sempre marcaram e sempre devem fazer parte do futebol, sejam tolhidas e censuradas.

Esta semana, o Corinthians aproveitou a conquista antecipada do Brasileirão para resgatar essa provocação sadia, prática tão em desuso ultimamente no Brasil. Para alfinetar os rivais, o Palmeiras e o Santos, que chegaram a ameaçar o hepta, o Timão criou a imagem de um lenço, marcados com o contorno de um focinho de porco e uma boca de peixe, e divulgou em suas redes sociais. “Em caso de mimimi imprima este lenço”, dizia a mensagem. É o que estamos precisando resgatar. O grande barato do dia seguinte é zoar o colega que torce para o outro time. Com humor, sem baixar o nível ou descambar para a violência ou a intolerância – e sem que se veja isso em tudo -, o futebol só tem a ganhar.