Vinícius Perazzini
21/10/2016
08:05
São Paulo (SP)

Às vésperas de completar 60 anos, o engenheiro eletrônico Emerson Heidi Yto ainda lembra perfeitamente das emoções que viveu em 6 de maio de 1984. Naquele dia, ele foi protagonista de um Corinthians x Flamengo que tinha craques como Sócrates, Casagrande, Júnior e o ainda garoto Bebeto. O jovem Emerson, então com 27 anos, era o responsável por controlar o placar eletrônico do Morumbi no clássico decisivo pelas quartas de final do Brasileirão de 1984. No jogo de ida, no Maracanã, o Fla venceu por 2 a 0. Na volta, o Timão aplicou um impressionante 4 a 1, conseguindo vaga na semifinal. Corintiano fanático, o engenheiro Emerson se empolgou no último minuto da partida e, diante de um público de 123.435 torcedores, provocou o Flamengo pelo placar do estádio: "Ponte aérea para o Rio - Próximas partidas - 18:00, 19:00, 20:00, 21:00", dizia a mensagem brilhante em luzinhas amareladas. Em seguida, os horários foram substituídos por um irônico "Boa viagem". Ali, Emerson entrava para história como "pai da trolagem digital" sobre um rival no futebol brasileiro.

Até aquele dia, não havia registro de uma provocação tão grande no futebol brasileiro com uso de computação. O árbitro do jogo, Arnaldo Cezar Coelho, ficou espantado e escandalizado. Ele relatou a provocação na súmula da partida e exigiu que atitudes como aquela fossem coibidas no futuro. A reprovação de Arnaldo deixou os holofotes ainda mais voltados para Emerson. Hoje, 32 anos depois e perto de mais um Corinthians x Flamengo de muita importância, o engenheiro eletrônico relembra em papo exclusivo ao LANCE! de onde tirou inspiração para zoeira e como foi o momento da provocação.

- A ponte aérea, naquela época, tinha glamour. Eu gostava de ir ao Aeroporto de Congonhas. Às vezes, só para tomar um cafezinho. Naquela época já existia a "voz dos aeroportos", da locutora Íris Lettieri, que falava pausadamente os horários da ponte aérea, 18h, 19h, 20h e 21h, e em seguida fechava com um boa viagem. Que voz! - disse Emerson, que completou suas lembranças fazendo um gancho entre a ponte aérea e o jogo vencido por 2 a 0 pelo Fla:

- Uma semana antes, o Corinthians perdeu no Rio e imagine a tensão que ficou no Morumbi para o segundo jogo. Depois, passados os 43 minutos do segundo tempo, 4 a 1 para o Corinthians, resultado já definido, você naquele clima... Decidi escrever. No momento, eu escutava três rádios na cabine. Assim que saiu a mensagem, uma delas chegou a dizer que era serviço de utilidade pública (risos). Só com o boa viagem viram que tratava-se de uma brincadeira.


Emerson não foi demitido do seu posto apesar de toda a repercussão gerada pela brincadeira, mas recebeu recomendações para que a zoeira não se repetisse. Na semifinal, o Corinthians enfrentou o Fluminense e o engenheiro exibiu o desenho de uma tesoura, um protesto contra a censura no placar.

- Hoje não há mais aquela liberdade para fazer qualquer “zoeira” ou algo que saia do padrão. O padrão agora é dar escalações, renda do jogo e no máximo alguns resultados de partidas. É tudo muito monitorado - explicou Emerson, que espera por um novo 4 a 1 para o Corinthians, assim como em 1984.

- Foi 4 a 0 no primeiro turno. Agora, neste domingo, será 4 a 1. Vamos deixar fazer um (risos).

TAMBÉM "PAI" DO PRIMEIRO PLACAR ELETRÔNICO DO MARACANÃ

Emerson fará 60 anos no próximo 20 de janeiro e até hoje segue atuando com placares eletrônicos, porém agora na parte de manutenção. Os placares do Pacaembu (São Paulo-SP), Brinco de Ouro (Campinas-SP) e os placares antigos do Maracanã, que atualmente estão no Giulite Coutinho (Mesquita-RJ) e no Eduardo Guinle (Nova Friburgo-RJ), são cuidados com carinho por Emerson. Inclusive, ele fez parte da instalação dos antigos placares do Maracanã quando eles chegaram novos ao estádio, em 1979. No período, Emerson estava no seu primeiro ano de estágio e fazia frequentemente a ponte aérea Rio-São Paulo. Ele era aluno do terceiro ano de engenharia na Universidade Mackenzie/SP.

O engenheiro comandou o placar do Morumbi entre 1980 e 2008. Foram muitos os momentos marcantes, incluindo grandes festas e também episódios tristes, como a morte do zagueiro Serginho, jogador do São Caetano que sofreu ataque cardíaco no Morumbi e foi a óbito em hospital 40 minutos depois.

- Foram 28 anos de muito trabalho, presenciando muitos títulos do São Paulo e também muitos títulos do Corinthians. Houve também show de rock, eventos religiosos, a visita do Papa João Paulo II em 1980. Lembro também de momentos tristes, como o anúncio do falecimento de Ayrton Senna para um minuto de silêncio e o ataque cardíaco do zagueiro Serginho. Enquanto os jogadores do São Caetano e do São Paulo faziam oração no centro do campo, foi exibida a mensagem "Serginho, oramos por você" - recordou Emerson.

'CORINTIANISMO VEM DE BERÇO'

Emerson nasceu na cidade de Marialva, no Paraná, a 430 quilômetros de Curitiba. Ele herdou do pai, o imigrante japonês Tomio, a paixão pelo Corinthians. Seu pai trabalhava 14 horas por dia e, quando sobrava tempo, corria para o rádio com o objetivo de escutar notícias sobre o futebol. Assim nasceu, nos anos 50, o amor pelo Timão, sentimento logo repassado ao filho.

- Meu corintianismo vem de berço. No Norte do Paraná muita gente torce pelos times de São Paulo. Lembro do meu pai com seu radinho de pilha no ouvido, ouvindo Fiori Gigliotti. Quando eu escutava que tinha acontecido gol, logo perguntava de quem tinha sido. Recordo dele falando: "É Rivelino! É Rivelino!".