Manoel Renha, Eduardo Freeland e Marco Antônio Tristão (Assessor da direção da base)

Manoel Renha, Eduardo Freeland e Marco Antônio Tristão, assessor da direção da base (Foto: Divulgação)

Felippe Rocha
22/09/2016
07:00
Rio de Janeiro (RJ)

A crise financeira do Botafogo não é de hoje, e a falta de bons jogadores formados na base do clube é um reflexo desse colapso nas contas. Ou foi. Nos últimos anos, a terra arrasada da qual poucos nomes brotavam se tornou competitiva e viu alguns jovens serem aproveitados no time principal. Talento comprovado, eles foram vendidos ou, por vias judiciais, trocaram de casa, mas continuaram em clubes grandes. A geração de Dória, Gabriel e Vitinho dava o alerta. Marcelo, Matheus Fernandes e Bochecha lideraram a conquista do Campeonato Brasileiro de juniores, na última terça-feira. Eles simbolizam a reconstrução. Frutos num futuro próximo, após anos de seca.

Os três, conforme o técnico Jair Ventura afirmou após o jogo desta quarta-feira, contra o Cruzeiro, serão reintegrados ao time profissional. Outros devem ser aproveitados em breve, e dois dirigentes comandam o processo que colocou as categorias inferiores do Glorioso num patamar jamais visto. Manoel Renha é conhecido na política alvinegra. Ativo na gestão de Bebeto de Freitas (2003-2008), voltou com Carlos Eduardo Pereira (eleito no final de 2014) para ser o diretor geral da base. Eduardo Freeland também esteve na gestão de Bebeto, ficou afastado do mandato de Mauricio Assumpção (2008-2014) por um ano, mas voltou e, com CEP, segue como gerente geral da base.

- Muitos fatores determinam uma conquista como essa. Não tenho dúvidas de que a reestruturação física do clube foi importante. A manutenção do trabalho que vinha sendo feito, com olhar para a base, a qualificação profissionais que já estavam e a filosofia da nova administração ajudaram. Nós passamos a olhar para os atletas com um "carinho profissional", dando a estrutura que eles precisam para alcançar o nível nacional, como alcançaram - analisa Freeland, em entrevista exclusiva ao LANCE!.

A grosso modo, a gestão de Bebeto de Freitas deu início à reorganização financeira do clube de General Severiano; Assumpção, excluído este ano do quadro de sócios, contratou jogadores na fase final de formação; e a atual gestão do clube vem priorizando a formação a longo prazo. Mesmo assim, os investimentos são inferiores aos dos concorrentes, tal qual o tamanho da dívida do clube. Ao ponto de, quando assumiu a base, Renha cogitou dar fim às categorias pré-mirim e mirim (sub-12 e sub-13, respectivamente).

- Dentre os quatro grandes, nosso investimento é o menor, com uma diferença significativa. Estamos na casa de R$ 6,5 milhões esse ano, que é mais que no ano passado. Na gestão do Carlos Eduardo Pereira, não se gasta mais do que se tem, e isso é ótimo, porque você tem que priorizar e saber utilizar com a melhor eficácia possível os recursos que tem. Cheguei até a sugerir, quando entrei, cortarmos as categorias menores. Falei com o Freeland: "Se é para fazer mal, é melhor não fazer. Para fazer torto, não faz." - revela Renha ao L!.

O que aconteceu, de fato, em pouco mais de um ano da nova diretoria? A situação financeira, se não melhorou na proporção de despesas e dívidas contra as receitas, ficou mais clara. A adesão ao Profut (Programa de Modernização da Gestão e de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro), a obtenção de certidões negativas que permitiram o retorno ao Ato Trabalhista, e o iminente patrocínio da Caixa Econômica Federal aliviam os cofres. Se aliviam os cofres, permitem mais ações também em relação aos mais jovens, além do time profissional.

- Nós vimos o que dava para fazer. Mexemos o mínimo possível na equipe técnica, preservamos profissionais pela experiência que ele (Frelland) tinha, pelo feedback que ele deu em relação ao que havia na base do Botafogo nos últimos anos. Fizemos a melhoria do estado do gramado de Caio Martins (onde treinam quase sempre as categorias abaixo dos juniores); passamos a dar alimentação, que o clube nunca havia dado à base, e damos desde março; e o clube colocou os salários em dia. Ano passado foi sofrido. São pequenas coisas que parecem óbvias, mas já ajudam - explica Renha.

No grau de comparação, a conquista nacional do Botafogo é ainda mais impactante. Clubes paulistas tem investimentos até quatro vezes maiores. Mas ela só simboliza o que vem se tornando rotina: as revelações alvinegras, agora, entram em cada campeonato para disputar o título. Na Copa do Brasil Sub-17 do ano passado, a equipe foi derrota nos pênaltis para o Vitória. De todo modo, o título brasileiro deste ano, somado a campeonatos estaduais, nacionais e internacionais somam 13 títulos em cinco anos. Eduardo Freeland comemora o bom ambiente gerado no clube.

- A filosofia é a formação de cidadãos. São seres humanos que jogam futebol, mas que têm família, coisas boas e problemas, e temos que potencializá-los para que, diariamente, eles estejam melhores do que no dia anterior. A maior prova foi dos funcionários, na terça-feira: mais de 30, que não trabalhariam na partida, foram à arquibancada torcer. Pelo carinho, fizeram um bate-volta até São Paulo. Treinadores de outras categorias, psicólogo, assistente social, o pessoal da faxina, da lavanderia. Todos entendem, de quem limpa o chão a quem dá o treino, a responsabilidade na formação dos atletas. Aí acaba que o cara lá de cima acaba ajudando. Cria-se uma atmosfera positiva - entende.

Geração talentosa e mudança de treinador

Manoel Renha lembra que, para quem não tem tanto poder de investimento, é preciso ser criativo. Dar qualidade ao trabalho, gastando de uma forma diferente. Tudo se encontrou no time sub-20, inclusive a chegada de Eduardo Barroca, no início deste ano.

- Se você não têm os mesmos recursos que outros, não dá para fazer o mesmo. Temos um quantitativo menor de jogadores. Em General Severiano, temos condições de alojar 16 atletas, é ínfimo. Nossa filosofia tem que ser para a nossa realidade. Trabalhamos com atletas do estado - poucos são de fora. Mas há seriedade, comprometimento e transparência. Já existia um trabalho técnico bem feito. Procuramos dar continuidade e melhorar o que foi possível. A geração é muito boa. Vice-campeã ano passado (sub-17), subiu e qualificou o grupo que eu considero focado, competitivo e comprometido. Fizemos mudanças pontuais na comissão pois achávamos necessário - recorda.

A mudança foi a saída de Maurício Ferreira, o Mauricinho, então treinador do time de juniores. A decisão rendeu polêmicas pelo sucesso que já vinha sendo obtido na categoria. Nos cinco jogos antes da demissão, a equipe venceu quatro e empatou um.

De todo modo, a geração do zagueiro Marcelo e dos volantes Matheus Fernandes e Bochecha, já convocados por Jair Ventura, tem mais. São outros destaques o lateral-direito Marcinho, que participou da pré-temporada deste ano; o lateral-esquerdo Victor Lindenberg, o zagueiro Kanu e o meia Yuri, autores dos gols do título; além, naturalmente, do atacante Renan Gorne, artilheiro da equipe no Campeonato Brasileiro. Mas como fazer para que a transição da base para a categoria principal não seja traumática - como complicada está sendo para Luis Henrique, após um 2015 espetacular tanto na equipe sub-17 quando no time principal?

- Futebol não é uma ciência exata. Cada caso é um caso, depende da oportunidade e da necessidade do time de cima. Procuramos fazer a transição aos poucos. Alguns já foram relacionados para o banco do time profissional e, de repente, jogam; outros treinam uma semana e voltam para a base. É um processo de aculturar. A diferença nos jogos deixa de ser de dois anos (de 18 a 20 nos juniores) e pode ser dez, 12 anos. Mas o aproveitamento é uma necessidade. Tem caso, que não precisamos mencionar, no qual talvez tenhamos errado um pouco na mão, mas se aprende com erros e estamos procurando aperfeiçoar cada vez mais - finaliza Renha.