Felippe Rocha e Vinícius Britto
19/10/2016
07:00
Rio de Janeiro (RJ)

O Botafogo subia na tabela, fugia da zona de rebaixamento, mas os pés no chão eram a prioridade de Jair Ventura. Precisou a equipe se consolidar na briga pela vaga na Taça Libertadores da América para as coisas ficarem claras. Agora, é inevitável afirmar: foi sob o comando do treinador de 37 anos que o time de General Severiano obteve dez vitórias nos últimos 13 jogos do Campeonato Brasileiro. Aproveitamento de 76,9% que parece natural, mas que foi construído à base de conquista do grupo. E o percentual pode aumentar ainda mais contra o Santa Cruz, na noite desta quarta-feira. O duelo é no Arruda, em Recife (PE), às 21h45.

A efetivação do antes auxiliar, em agosto, foi vista com bons olhos pelo elenco, embora alguns desconfiassem da personalidade dele. Havia quem se incomodasse com a genética: ser filho de Jairzinho, um dos maiores ídolos do clube. Mas tudo isso caiu por terra quando a equipe foi se acertando e vencendo no Brasileirão.

Mesmo com os técnicos anteriores, já era Jair Ventura quem fazia muitas das análises e apresentava aos atletas o cenário de cada partida. Previsão e estratégia que, enquanto comandante do grupo, ficaram cada vez mais evidentes. A união dos jogadores em torno do treinador se dá pela persuasão. Como os treinos e jogos vão provando os anos de estudo e as análises, o "barulho foi comprado".

Ao mesmo tempo, as virtudes de um técnico estreante se conciliam à boa relação com os atletas. O volante Dudu Cearense, apenas quatro anos mais novo que o treinador, admitiu que se dedicar para quem cobra e elogia na medida certa é melhor. Mais que isso, ele revelou parte do estilo democrático da linha de comando.

- Isso é fundamental. Ele é o nosso comandante, mas pensa: Como vou correr para uma mala. Vou correr, dar o melhor? Uma coisa é a cobrança, outra é ser mala. Ele é um cara espetacular, dá capacidade de discutirmos e tudo. Mas claro que, no futebol, quando se perde, a cobrança vai no pescoço. Mas aqui está ótimo - brincou.

Que os atletas estão "fechados" com Jair, é nítido. Que as palavras do treinador estão convencendo e dando certo, também. Vejamos como será logo mais.

AMBIENTE LEVE, MAS SEM ESQUECER ERROS, MESMO NAS VITÓRIAS
Os jogadores do Botafogo, sempre que podem, destacam o ambiente do clube com o comandante. O clima tranquilo tem sido um marco da Era Jair até então. Mesmo em momentos conturbados, como depois da derrota de 5 a 2 para o Cruzeiro, a tensão não se fez presente em General.

Mesmo nas vitórias, o técnico não deixa o salto alto se fazer presente entre os jogadores. Outra característica marcante do seu trabalho. Essa dosagem entre tranquilidade e cobrança foi valorizada pelo elenco.

- O Jair é um cara que deixa o ambiente leve. Mas também não deixa achar que já está tudo certo, apesar das vitórias, que foram positivas. Não entramos de salto alto. Ele pede a mesma pegada e pés no chão. Foi assim que conseguimos chegar onde estamos e assim que pretendemos, quem sabe, subir mais na tabela - enaltece Victor Luis, que tem seu discurso reforçado por Pimpão.

- Cheguei na metade do ano e acompanhei o que estava acontecendo. O Jair encaixou a equipe da melhor maneira possível. É responsável pelo nosso grande momento - disse.

TREINOS DE BOLA PARADA E INTENSIDADE DOBRADA
Algumas virtudes dos treinos de Jair Ventura tem ficado em evidência conforme o Glorioso vai colecionando vitórias no Brasileiro. Duas delas se fizeram presentes no último domingo: a bola parada e a intensidade.

A partir da primeira que o Botafogo marcou duas vezes contra o Atlético-MG. A jogada aérea foi treinada exaustivamente. Assim já havia ocorrido em outras ocasiões no decorrer da arrancada na tabela.

- Treinamos muito a bola parada no treino fechado. O último gol assim havia sido no primeiro turno. Conseguimos o gol da vitória assim - disse depois do jogo na Arena da Ilha.

Além do êxito na preparação para o tipo de jogada, Jair costuma cobrar muito intensidade do seu time. Nos jogos e nos treinos. As atividades comandadas pelo técnico costumam durar mais tempo do que as da época de Ricardo Gomes, técnico anterior.

Tem sido comum também a utilização de fitas no gramado, para a marcação do campo reduzido e diminuição do espaço dos jogadores, estimulando o pensamento rápido e simulando situações de jogo.