Camilo - Coletiva Chapecoense

Há duas semanas, Camilo defendeu o Botafogo contra a própria Chapecoense (Foto: Vitor Silva/SSPress/Botafogo)

Felippe Rocha
29/11/2016
16:37
Rio de Janeiro (RJ)

Foi a caminho do treino que Camilo soube da tragédia com o avião que levava a delegação da Chapecoense para a disputa do primeiro jogo da final da Copa Sul-Americana. No carro, ele entrou em choque. No Botafogo, informou que não tinha condições de psicológicas de trabalhar. Não era para menos. Foram duas temporadas na equipe de Santa Catarina e, além dos muitos membros da comissão técnica e diretoria, nove ex-companheiros morreram na queda do avião, a 50 quilômetros de Medellín, na Colômbia.

- A dor é a pior do mundo. Nós ficamos sem imaginar o que vai ser daqui pra frente. Só com o tempo para vermos o que vai acontecer - disse um Camilo ainda muito abalado, em entrevista coletiva na tarde desta terça, no prédio onde mora, no Recreio dos Bandeirantes.

Camilo - Coletiva Chapecoense
Camilo se emocionou na coletiva (Foto: Felippe Rocha / Lancepress)

O jogador chegou na Chapecoense em 2014, disputou também a temporada 2015 e tem dez gols marcados. Fez o primeiro gol internacional da história da equipe de Chapecó, e tenta se confortar, ao passo que pede força à cidade.

- Família Chapecó, aqui vai todo o meu sentimento e da minha família. Pela cidade, pelos jogadores que trilharam o meu caminho. Por ter sentido o abraço de cada um. Quero levar um abraço para vocês - pede, emocionado.


Você tem contato com algum dos sobreviventes? Como era sua relação com os que morreram?
O Neto é um amigo. Desde que saí, temos dois grupos no celular e nos comunicávamos. Jogadores até em outros clubes e mantivemos contato. Dener, Danilo, Ananias, Gil, Cleber Santana, Thiego, Caramelo... realmente estamos muito tristes. Outros profissionais também. Cocada, o massagista Serginho, Clebson, Cadu, Maurinho, Sandro... pessoas que vão ficar na minha memória.

Como você ficou sabendo da notícia?
Eu estava indo para o treino e me informaram. Fiquei em choque, escutando o noticiário. Cheguei lá no clube e disse que não tinha condição de treinar. Voltei para casa, minha esposa está grávida e é amiga de outras esposas de jogadores da Chapecoense.

O que passou pela sua cabeça quando soube?
Passou muita coisa na minha cabeça. Antes de acertar com o Botafogo, eu estava com um pé na Chapecoense para voltar para lá. Muita apreensão. Agora temos que orar pelas famílias.

Como começou sua relação, que é tão forte, com a Chape?
Eu devo muito à Chapecoense. Cheguei lá, em 2014, com uma lesão e deixei em aberto. Perguntei o que poderiam, fazer comigo. Fizeram a minha recuperação, pude mostrar meu futebol. Se estou aqui no Botafogo, todas as pessoas naquele local me ajudaram.

Você pretende ir a Chapecó?
Minha vontade é essa. Vontade de dar um abraço, mas eu não sei vou ter condições, forças para ajudar.

Quando foi a última vez que você falou com os amigos de lá?
Falei com eles um pouco antes do jogo contra o San Lorenzo (semifinal da Sul-Americana. Sempre brincamos, falei que eles eram todos merecedores. É uma pena não poder fazer essa final.

Dentre os mortos, além dos seus ex-companheiros na equipe catarinense, está o comentarista Mário Sérgio, que foi seu treinador no Ceará, em 2010...
​O Mário Sérgio sempre foi um cara muito direto, me abraçou no Ceará. Falava de forma bastante direta.

Nota da redação: após o fim da coletiva, Camilo procurou individualmente alguns jornalistas e pediu que fossem repassados os votos de conforto às famílias dos colegas de imprensa mortos no mesmo voo.