PLÍNIO ROCHA

Plínio Rocha é jornalista, formado pela Universidade Metodista de São Paulo. Trabalhou como repórter na Rádio Jovem Pan AM e está no LANCE! desde 2000. Hoje, exerce a função de editor do Diário. Além, claro, de ser nadador amador. Nas horas vagas.

plinior@lancenet.com.br

Drama alheio

postado por Natação

Estava eu parado num lugar onde havia uma televisão mostrando flashes da Olimpíada. Muita coisa bonita, outras nem tanto.

Pois mostraram as mil expressões de Michael Phelps, a cada vez que ele caía na água numa final e saía dela com uma medalha de ouro no peito, e assim foi por oito vezes.

Não há quem não se renda ao talento do nadador, e sou um deles, assumidamente.

Mostraram, também, outras tantas festas de quem subiu ao pódio, seja no degrau que fosse.

Mostraram, acredite, o choro de Cesar Cielo após receber a medalha de ouro dos 50m livre, para mim, até agora, a imagem mais marcante da participação brasileira nos Jogos deste ano.

Mas como nem tudo são flores, vieram os dramas. E, claro, como não poderia deixar de ser, o que logo veio à tela foi Liu Xiang colocando a mão na perna direita e mostrando que não disputaria os 110m com barreiras.

Digo-lhes uma coisa: foi triste, e não importa de qual país você fosse, teria sentido aquele golpe.

E eis que dois chineses a minha frente começaram a conversar entre si. E diziam que aquilo se tratava de uma tragédia, uma das maiores de todos os tempos que afetaram o país asiático.

Diziam que se lembravam de como comemoraram quando o mesmo Liu Xiang conquistou a medalha de ouro em Atenas, há quatro anos, e como sonharam com esse dia em que ele seria bicampeão olímpico justamente em sua casa, sob os olhares de milhares (no estádio), milhões (pela capital) e bilhões (pelo mundo, sim, porque muita gente esperava por isso).

E concluíram dizendo que estavam arrasados, que não dormiram direito naquela noite e que o trauma continua até hoje, mas que paciência, é vida que segue, a derrota de Xiang um dia há de passar, porque tudo passa, um dia.

E se despediram, com cabeças baixas, cada um foi para um lado, não pareciam amigos íntimos, mesmo, daqueles que freqüentam a casa um do outro, que comem pizzas juntos e assistem a filmes dando risada.

Eu digo, para que fique claro, que não entendo bulhufas de chinês. Mas digo, da mesma maneira, que nem precisava entender, bastava ler o que os olhos puxados daqueles dois diziam ao fixar sua atenção naquela televisão.

Por Plínio Rocha

21/08/2008 02:17

 

Para sempre Michael Phelps

postado por Natação

Michael Phelps não é de outro planeta, como pregam por aí, principalmente os que perdem dele na piscina.

Não dizem isso, que fique claro, para justificar o revés. Deve ser, na verdade, uma maneira que encontraram para obter conforto quando se é derrotado.

Perder para um terráqueo é uma coisa. Para um ET, outra, completamente diferente, é o argumento que devem utilizar para si próprios para que a prata ou o bronze sejam suficientes.

Michael Phelps é bem humano. Não como qualquer um, mas é humano. É de carne e osso e precisa das mesmas coisas que todos nós precisamos para sobreviver. Eu me refiro ao básico, claro, antes que seja aberta uma discussão política e existencial neste espaço.

O americano deixou aflorar todo o seu lado emocional nesta Olimpíada. Foi ao pódio oito vezes, todas no lugar mais alto. E chorou em pelo menos cinco, que eu me lembre.

Phelps não fez isso para fazer média com alguém. Tenham certeza disso. Phelps fez isso porque, como qualquer ser humano, tem lembranças de momentos difíceis da vida.

E quando conseguimos uma vitória, seja ela a quer for, pensamos que somos capazes, e que danem-se os momentos difíceis, eles já passaram e tomara que não voltem nunca mais.

Michael Phelps conquistou oito medalhas de ouro e sete recordes mundiais em Pequim. É o maior de todos os tempos, não numericamente, ainda, mas é. Mas sofreu para chegar onde chegou, ouviu pessoas duvidando da sua capacidade, principalmente quando era uma criança problemática, com déficit de atenção.

Na coletiva de imprensa que deu neste domingo, na China, para falar do feito histórico, Phelps disse que lembrou muito de uma professora de inglês sua, dos tempos de colégio.

A tutora, a qual, claro, não disse o nome, um dia virou para ele e falou que ele não seria ninguém, que ele nunca teria sucesso na vida, não importa o que fizesse.

Não sei se esta senhora está viva ou se estava assistindo aos Jogos, mas, se a resposta for sim para as duas perguntas, certamente ela se lembrou de Michael Fred Phelps IV. Para nunca mais se esquecer dele.

Ninguém, aliás, vai esquecer dele. Nunca.

17/08/2008 02:39

 

Cielo

postado por Natação

Todo mundo sabia que a chance de Cesar Cielo ser campeão olímpico dos 50m livre era grande, mas ninguém estava preparado para que isso acontecesse.

Não sei por que, para falar a verdade.

Quando aconteceu, inclusive, bateu um frio na barriga estranho. Aquela vontade de gritar, misturada com a tranqüilidade de ter de olhar no placar, acreditar naquilo que estava acontecendo.

A essa altura, ele já estava dando socos na água. Cielo enxerga mal, mas já havia conferido e visto o número 1 ao lado do seu nome.

E, daí para frente, uma mistura de emoções tomou conta da situação. Para todo mundo que tivesse sangue correndo pelas veias, verde-e-amarelo, pelo menos.

Quando chegou a cerimônia do pódio, o choro chegou. Cesar não segurou e desabou. Passou tudo pela cabeça, todo sofrimento.

Ele, agora, era campeão olímpico.

Cielo é um moleque que merece esse tipo de coisa. Merece conseguir o máximo que pode conseguir. Porque corre atrás disso. Porque não tem medo de viver.

Em Pequim, seu choro foi de alegria. O dele, o meu, o de todo mundo que sentiu o que esse dia representou.

16/08/2008 16:50

 

Não tão letal assim

postado por Natação

Chega-se numa Olimpíada, às vezes, com algumas certezas na cabeça. Eu, por exemplo, achei que veria Leisel "Lethal" Jones campeã dos 100m e 200m peito.

O primeiro, de fato, aconteceu.

Mas no segundo, a australiana foi atropelada pela americana Rebecca Soni, que venceu com recorde mundial, de 2min20s22.

Lethal fez 2min22s05 e ficou com a prata.

E quem comemorou de verdade, muito mais do que as duas juntas, foi a norueguesa Sara Nordenstam, que levou o bronze, com 2min23s02.

Mas outra certeza que eu tinha aconteceu, ainda bem, senão já colocava meus conceitos em dúvida.

Kosuke Kitajima fez a dobradinha no peito. Ondulando nos dois, claro. A diferença é que agora pode, ao contrário de Atenas-2004, para quem se lembra disso...

15/08/2008 05:22

 

Cuidado com Cavic

postado por Natação

Para quem teve oportunidade de ler o LANCE! esses dias, fiz duas matérias com Milorad Cavic.

A primeira foi uma entrevista gigante na qual ele falava sobre o polêmico episódio que resultou na eliminação no Europeu deste ano. Ele foi ao pódio, após vencer e bater o recorde continental dos 50m borboleta, com uma camisa escrito "Kosovo é Sérvia."

A segunda foi com ele dizendo que sonhava em vencer Michael Phelps nos 100m borboleta, e que acreditava que isso pudesse acontecer.

Pois Cavic está na final da prova, com o melhor tempo, 50s92, contra 50s97 do americano e 51s27 de Ian Crocker, atual recordista mundial.

Mas, antes, na eliminatória, o sérvio foi ainda mais rápido, com novo recorde olímpico, 50s76.

Cavic me disse que estava preparado para ficar muito perto do recorde mundial, isso se não conseguisse batê-lo.

E mandou, nesta sexta-feira, a seguinte frase:

"Não tenho nada contra Michael Phelps, ele é o rei. Nunca desrespeitei ninguém, mas seria legal se contassem a história de que ele ganhou sete medalhas de ouro em Pequim e perdeu a oitava para um cara. E eu quero ser esse cara."

Será? A conferir.

15/08/2008 05:12

 

Britta, Britta

postado por Natação

Sem me gabar, mas nem prestei atenção, desde o começo, nas raias do meio na final dos 100m livre feminino.

Não que eu seja um Messias, mas todo mundo que acompanha um pouco de natação, como os amigos deste blog, sabia que a briga seria entre Britta Steffen e Lisbeth Trickett (me rendi ao sobrenome novo, paciência. Ela pediu, eu ia dizer não?).

Mas, confesso, achei que a australiana levaria a melhor. Como quase levou.

Foi dela o melhor tempo de reação (0s75 x 0s78) e os melhores primeiros 50m (25s18 x 26s04). Mas a arrancada da alemã, nos 15 metros finais, lembrou a de Lezak para cima de Bernard na final do 4 x 100m livre, a prova do século.

Resultado, Britta com ouro, 53s12, e Libby com a prata, com 53s16. Natalie Coughlin ficou com o bronze, com 53s39.

Que prova!

Só fiquei um pouco frustrado com o tempo. Achei que vinha recorde mundial. E até viria, mesmo, se a australiana não tivesse cansado no final.

Hanna-Maria Seppala ficou em quarto, com 53s97. E este comentário foi para, além de mostrar o nível da prova, citar a finlandesa, que é uma gracinha.

15/08/2008 05:04

 

O recorde de Spitz já era

postado por Natação

Não conte com o ovo antes de a galinha botá-lo.

Conheço o ditado, claro, mas também conheço Michael Phelps. O suficiente para dizer que o recorde de Mark Spitz já caducou.

Sim, porque Phelps pode até não levar o ouro nos 100m borboleta, uma prova que tem tudo para ser duríssima, mas apenas uma daquelas tragédias do esporte vai tirar o primeiro lugar dos EUA no 4 x 100m medley.

E você vai dizer, também, que isso aconteceu no Mundial, quando Ian Crocker queimou a saída na eliminatória.

E aí recorro a outro ditado, o de que o raio não cai duas vezes no mesmo lugar.

Pois se Phelps não levar o ouro nos 100m borboleta, mas medalhar, o que deve acontecer, terá ficado com sete ouros e uma outra medalha, melhor do que Spitz fez em Munique-1972.

Ah, e diziam por aí, também, que mesmo que igualasse ou superasse o número de medalhas, Phelps não conseguiria bater sete recordes mundiais, como fez Spitz.

Pois eu digo que já caíram os dos 200m e 400m medley, do 200m borboleta, dos 200m, 4 x 100m e 4 x 200m livre.

Do jeito que vai, alguém duvida que o do 4 x 100m medley também irá para o espaço?

Michael Phelps é um fenômeno, o maior nadador da história. E de fenômenos não se duvida de absolutamente nada.

15/08/2008 04:47

 

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