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Blog do André Kfouri
André Kfouri, 34, é jornalista. Começou sua carreira na rádio Jovem Pan, em 1993.
Desde 95, é repórter da ESPN Brasil. Nunca pensou em outra profissão, e se considera
privilegiado por não conseguir diferenciar trabalho de diversão. E ainda não
acredita que é pago para cobrir eventos esportivos.
akfouri@lancenet.com.br |
A GUERRA DOS TÊNISpostado por André Kfouri
O repórter jamaicano que é praticamente o porta-voz de Usain "Lightning" Bolt para a imprensa mundial, me contou ontem que a Puma vendeu 2 milhões de pares de tênis depois que Bolt ganhou os 100m rasos, no sábado passado.
Em uma hora.
Ao mostrar suas sapatilhas douradas na foto ao lado do placar eletrônico, exibindo seu recorde mundial de 9s69, Bolt desencadeou a explosão de vendas ao redor do mundo.
Também deu à empresa alemã de artigos esportivos que o patrocina, um saboroso momento na guerra de marketing que é travada na Olimpíada, especialmente no atletismo.
Em número de atletas exibindo sua marca nos pés, a Puma não tem como rivalizar com as gigantes Nike e Adidas. Mas, ao contrário do que se pode imaginar, patrocinar mais gente não siginifica necessariamente vencer a corrida comercial.
A final dos 100m era vista como "a batalha dos tênis" em Pequim, um duelo entre o americano Tyson Gay (Adidas), e os jamaicanos Asafa Powell (Nike) e Usain Bolt.
Era também o momento específico que motivou a concorrência entre Nike e Puma para fornecer material para os velocistas jamaicanos.
A Puma conseguiu fechar contrato com a Federação Jamaicana, para fazer o uniforme que os atletas usam na Olimpíada. Mas a grande maioria dos velocistas assinou com a Nike.
Usain Bolt foi o único que acertou com a empresa alemã.
Como você deve lembrar, Tyson Gay não passou das semifinais dos 100 metros. Asafa Powell terminou em quinto lugar, uns cinco minutos atrás de Bolt.
Nike e Adidas já tinham se deliciado com o final da Cerimônia de Abertura, quando o ex-ginasta Li Ning correu no topo do Ninho de Pássaro e acendeu a pira olímpica.
Ning (3 ouros, 2 pratas e 1 bronze em Los Angeles '84) é uma lenda do esporte chinês, que fundou uma empresa de material esportivo com seu nome, porque não gostava de usar marcas estrangeiras.
A Nike levou outro golpe na segunda-feira, quando Liu Xiang (ao lado do gigantão Yao Ming, o principal garoto-propaganda da empresa americana nos Jogos), ouro em Atenas nos 110m com barreiras e ídolo nacional, abandonou a competição por causa de uma lesão no tendão de aquiles do pé direito.
Enquanto isso, na Alemanha, os executivos da Puma esfregam as mãos pensando na final dos 200m rasos, que acontece nesta quarta-feira.
Aí vem mais uma medalha de ouro, talvez mais um recorde mundial, e muitas fotos das sapatilhas douradas.
Na semifinal de ontem, Bolt deu outra amostra de que a prova dele é diferente da dos adversários.
O americano Shawn Crawford se matava para se aproximar, na reta. Bolt o olhou com cara de como-você-ousa-estar-aqui?, e acelerou de leve.
Comentei com o colega jamaicano que "amanhã (hoje) é a grande noite".
A resposta dele: "Engano seu, amigo. Só há grandes noites quando há competição".
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MICO CHINÊSpostado por André Kfouri
Não sei se uma atleta saltar com uma vara diferente da ideal é o equivalente a um jogador de futebol vestir uma chuteira que não lhe serve.
Ou um tenista jogar com uma raquete que não é a dele.
Talvez sejam situações parecidas, talvez não.
Independentemente disso, é um completo absurdo que os organizadores de uma competição percam o equipamento de alguém.
Ainda mais, numa Olimpíada.
E não importa que Fabiana Murer use mais varas do que as outras atletas. Não há nada de errado nisso.
Errado é obrigar uma saltadora a "se virar", justamente no ponto mais alto de sua vida esportiva.
Também não sei se Fabiana ganharia uma medalha se o problema não tivesse acontecido, mas esse não é o ponto.
O ponto é que as condições devem ser iguais para todos.
Durante o imbróglio de ontem no Estádio Olímpico, o que eu pensava era o que aconteceria se a vara que sumiu fosse de...
Yelena Isinbayeva.
Já pensou?
O absurdo seria exatamente o mesmo.
Mas e o desfecho, seria igual?
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USAIN E U200postado por André Kfouri
Os jornalistas jamaicanos dominam a zona mista do Ninho de Pássaro.
Da mesma forma que os velocistas jamaicanos dominam a pista nas provas curtas.
São seis ou sete repórteres de televisão e rádio, que se transformaram nas estrelas da cobertura.
Eles falam com todos os atletas da Jamaica, como se fossem os melhores amigos. Talvez até sejam.
Um deles trabalha para uma emissora de TV, usando um telefone celular com câmera de vídeo.
O atleta sai da pista e pára na frente dele. O cara prende o fone do ouvido do telefone no uniforme e se afasta um pouco. Faz duas ou três perguntas, e pronto. Depois é só transferir o arquivo para um laptop, e enviá-lo pela internet.
O engraçado é que todas as câmeras de detentores de direitos de transmissão precisam ter um selo colado, para entrar nas sedes de competição.
O selo da "câmera" do jamaicano é maior do que o telefone dele. E está colado no fio do fone de ouvido.
Ontem, eu bati um papo com eles para uma matéria sobre as velocistas da Jamaica nos 100m com barreira e nos 100m rasos.
A reportagem corria um sério risco de morte súbita, por causa do horário do final das provas, muito próximo do deadline do "Boa Noite Pequim", da ESPN Brasil.
Mas valia a pena arriscar, desde que o processo fosse acelerado (personagens ideais, não?).
Enquanto as jamaicanas venciam três das cinco baterias dos 100 com barreira, e as duas semifinais dos 100m rasos, eu já escrevia o texto sobre o passeio, que deveria desembocar numa vitória do país na prova mais nobre.
Estava tudo pronto. Se uma das três finalistas jamaicanas ganhasse o ouro, a matéria iria ao ar. Se não, teria de reescrevê-la, e acho que não daria tempo.
Obviamente, eu era mais jamaicano do que meus companheiros de zona mista, na hora da final.
Shelly-Ann Fraser, em sua primeira competição fora da Jamaica, disparou e ganhou com 10s78, para a minha vibração.
Como se isso já não fosse mais do que suficiente, as outras duas (Sherone Simpson e Kerron Stewart) empataram com 10s98 e dividiram a prata.
Um pódio inteiro para a Jamaica, final perfeito para a reportagem.
Meus colegas de Kingston deram risada quando contei por que torci tanto para as compatriotas deles, e disseram que, se eu tivesse perguntado, não passaria nervoso. Eles tinham certeza do ouro.
Como têm certeza de que Usain Bolt vencerá os 200m rasos, sua especialidade.
"É 12, numa escala de 1 a 10", disse um deles, hoje de manhã, após a eliminatória em que Bolt praticamente parou nos metros finais. "Nunca vimos, e nunca veremos, alguém como ele", completou.
É verdade. Esse cara tem uma sexta marcha.
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8/8 (dizer o quê?)postado por André Kfouri
Quando Michael Phelps caiu pela última vez na piscina do Cubo de Água, os Estados Unidos estavam em terceiro lugar (Brendan Hansen tinha levado mais uma aula de Kosuke Kitajima no peito) no revezamento 4 x 100m medley.
Quando Phelps saiu da água, o time americano estava na liderança, mantida por Jason Lezak até o final.
O tempo de 3'29"34, recorde mundial, criou um novo patamar na história da natação e dos Jogos Olímpicos.
Um patamar ocupado exclusivamente por Michael Phelps.
Ele chegou a Pequim com um plano ousado, e sairá não só como o maior nadador de todos os tempos, mas também como o mais decorado atleta que já disputou uma Olimpíada.
A oitava medalha de ouro em Pequim, décima-quarta na carreira, deixou Phelps um corpo a frente de Mark Spitz, o homem que ganhou 7 provas no Jogos de Munique, em 1972.
Ao sair do pódio, o assassino das piscinas entregou mais um buquê para a floricultura de sua mãe, Debbie, que já determinou as novas braçadas do campeão: ela quer que ele se classifique para a seleção americana que vai ao Campeonato Mundial do ano que vem, em Roma.
Mrs. Phelps quer conhecer a Itália.
No país em que o número oito significa fortuna e prosperidade, Michael Phelps fez a parte dele. Foram oito ouros e teriam sido oito recordes mundiais, se não fosse a "falha" nos 100m borboleta.
Mas na única prova em que não quebrou o recorde, Phelps venceu com o tempo de 50s58.
Os chineses o chamam de "super-peixe". A mídia, de "extraterrestre". Um nadador adversário disse que, na verdade, Phelps veio do futuro.
Mas a melhor definição para a exibição histórica que o mundo viu em Pequim é de Mark Spitz. Em entrevista ao jornal belga "Het Laatste Nieuws", Spitz disse o seguinte:
"Eu fui o primeiro homem na Lua. Michael Phelps é o primeiro homem em Marte".
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HIPERESPAÇOpostado por André Kfouri
Eu ainda não acredito no que acaba de acontecer no Estádio Olímpico.
Vi a final dos 100m rasos na redação da ESPN, pela TV. Momento histórico.
Usain Bolt ganhou a prova mais nobre do atletismo, como se tivesse uma turbina embutida.
Acelerou na metade, separando-se do adversários como se fossem todos meninos e ele, um cavalo de corrida.
Inacreditável.
E mais: o jamaicano quebrou o recorde mundial (9s69), brincando nos últimos metros.
Olhou para o lado, abriu os braços, bateu no peito. Tudo antes da chegada.
Ou seja, o tempo seria bem melhor, se Bolt quisesse.
E o show dele está só começando.
ATUALIZAÇÃO, 17/08, 11h58 China time - Usain Bolt ganha um bônus, que não é pequeno, por cada recorde quebrado. Isso explica por que ele não foi ainda mais rápido ontem.
Porque não quis.
Na semana que vem, no mês que vem, ele reduz o tempo em mais alguns centésimos e enche o bolso de dinheiro.
Por que quebrar o pote de uma vez só, né?
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O MUNDO É DE CÉSARpostado por André Kfouri
O técnico de César Cielo sabia.
No primeiro contato com seu pupilo, bem cedo, o australiano Brett Hawke soube como a manhã terminaria.
Cielo estava pronto.
E ele também sabia. Não apenas pela promessa de ouro feita após o bronze nos 100m livre. Mas pelos tempos que registrou nos 50m: 21s47 na classificação, 21s34 na semifinal.
O sinal da cruz ao entrar na piscina foi um pedido de companhia, num esporte solitário. São 50m até a parede.
Cielo voou para a água, e acelerou. Cento e dez por cento de esforço, os dentes retesados pela dor que é parceira da velocidade.
Na metade da piscina, ele já era o primeiro. Dois franceses planejavam um ataque.
Coitados.
A chegada, diferentemente de outras edições da prova, nem precisou de câmera lenta. Cielo ganhou (21s30, novo recorde olímpico) por 15 centésimos, uma lavada.
O placar demorou um pouco para comprovar que, pela primeira vez na história, um nadador brasileiro era campeão olímpico.
Então Cielo se transformou. Uma reação animal, de um "monstro das águas".
Quando voltou a ser humano, não resistiu às próprias emoções. Ainda na água, o choro do campeão marcou o indescritível encontro entre realidade e sonho.
Na piscina em que os livros de recordes da natação estão sendo reescritos, e o maior atleta olímpico de todos os tempos se consagrou, nenhuma cerimônia de premiação foi tão comovente.
Todo mundo chorou.
Prova de que momentos iguais podem ser diferentes. E que emoção genuína tem alto poder de contágio.
Brett Hawke sabia.
César Cielo sabia.
Agora, o mundo sabe.
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7/8 (Mas quem ganhou?)postado por André Kfouri
Eu achei que Michael Phelps perdeu a final dos 100m borboleta.
Vendo a prova num monitor plasma, no corredor lateral da piscina, eu tive certeza de que o sérvio Milorad Cavic tocou primeiro na parede.
O Cubo de Água também achou. O barulho que se seguiu ao frenesi da chegada, foi a tradução para todas as línguas de "o quê?!"
Sou capaz de apostar que, se você viu a prova, também ficou surpreso.
E, quer saber?, Michael Phelps também achou que perdeu.
Phelps tinha dito que, para ter chances de vencer, precisaria estar na frente na virada.
Após 50 metros, o super-peixe estava em sérios problemas. Era o sétimo colocado.
Então ele encontrou uma marcha desconhecida e diminuiu a vantagem de Cavic. Mas, em nenhum momento, zerou a distância para o sérvio.
Até o último dos últimos momentos.
A câmera super-lenta mostrou a chegada, de cima para baixo. E provou que Cavic tinha a prova nas mãos, mas errou na chegada, um dos fundamentos da natação de competição.
Enquanto o sérvio se esticou, esperando a parede, Phelps foi ao encontro dela numa última braçada.
Os dois sistemas de cronometragem em funcionamento no Cubo de Água registraram que o americano tocou 1 centésimo de segundo antes: 50s58 a 50s59.
O Comitê Olímpico Sérvio pensou em formalizar um protesto, mas desistiu depois de ver as imagens.
O próprio Cavic declarou que aceitou o resultado.
Em sua décima-sétima prova em Pequim, Michael Phelps mostrou que o esforço colossal cobra um preço. Ele está visivelmente cansado.
Mas, ao que parece, é impossível vencê-lo.
Mesmo quando o olho nu diz o contrário.
ATUALIZAÇÃO, 16/08, 22h58 em Pequim - A geradora de imagens dos Jogos Olímpicos divulgou as cenas da chegada dos 100m borboleta, pela câmera que fica embaixo da água.
As imagens, que não fizeram parte da transmissão da prova, são conclusivas.
Foi uma chegada absurdamente disputada. Mas não resta dúvida de que Michael Phelps tocou na parede primeiro.
A ESPN Brasil mostrará as cenas. Veja você mesmo.
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